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23.2.04
Vacilo
Alguém deveria ter me contado: hamsters podem ter derrame e, sim, você pode amá-los. E, mais ainda, sofrer por eles.
Rafiza Ribeiro
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23:25
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20.2.04
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Roland Barthes
Rafiza Ribeiro
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11:45
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19.2.04
When I'm Sixty-Four
When I get older losing my hair,
Many years from now.
Will you still be sending me a valentine
Birthday greetings bottle of wine.
If I'd been out till quarter to three
Would you lock the door,
Will you still need me, will you still feed me,
When I'm sixty-four.
You'll be older too,
And it you say the word,
I could stay with you.
I could be handy, mending a fuse
When your lights have gone.
You can knit a sweater by the fireside
Sunday mornings go for a ride,
Doing the garden, digging the weeds,
Who could ask for more.
Will you still need me, will you still feed me,
When I'm sixty-four.
Every summer we can rent a cottage,
In the Isle of Wight, if it's not too dear
We shall scrimp and save
Grandchildren on your knee
Vera Chuck & Dave
Send me a postcard, drop me a line,
Stating point of view
Indicate precisely what you mean to say
Yours sincerely, wasting away
Give me your answer, fill in a form
Mine for evermore
Will you still need me, will you still feed me,
When I'm sixty-four.
The Beatles
Rafiza Ribeiro
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12:21
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Meu ideal seria escrever
Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse -- "ai meu Deus, que história mais engraçada!". E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria -- "mas essa história é mesmo muito engraçada!".
Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.
Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse -- e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aqueles pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse -- "por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!" . E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.
E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago -- mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: "Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina".
E quando todos me perguntassem -- "mas de onde é que você tirou essa história?" -- eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: "Ontem ouvi um sujeito contar uma história...".
E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.
Rubem Braga
Rafiza Ribeiro
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09:32
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Roland Barthes
Rafiza Ribeiro
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09:19
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13.2.04
Pequenas notas
Às vezes, falo coisas que meu pai sempre falou. A frase mais forte no momento é aquela que diz: "a vida é difícil".
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O Alain Touraine tem um livro chamado Cartas a uma jovem sociologa. Com um nome desses, tudo o que eu tenho a dizer é: eu quero.
P.s.: O bom da vida são as coisas simples. Hoje um ex-aluno me passou um e-mail empolgadíssimo, dizendo que ia passar uma entrevista com o Alain Touraine na TVE, no sábado e no domingo. Eu fiquei felicíssima. Não com a entrevista, mas com o aluno. E ele ainda disse que vai gravar!
Rafiza Ribeiro
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18:11
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5.2.04
Por enquanto
Tenho uma amiga, grande amiga, dos tempos de faculdade, que mais parece uma música de Maysa. Romântica rasgada, que sofre até as últimas conseqüências por amor. Quando a conheci, em 1995, ela ainda era quase uma menina. Imaginem: 17 anos. Ela sofria por um namorado. Um namorado extremamente agressivo, mas, conforme dizem as minhas lembranças, muito apaixonado também (de acordo com a palavra paixão - movimento impetuoso da alma, para o bem ou para o mal). Corria a boca pequena que ele era infiel. Não só isso: ele era muito infiel. E ela fechava os olhos. Era como se acreditasse que, apesar de sua própria desconfiança, tudo fosse apenas um grande mal-entendido. Até que um dia o mal-entendido se desfez. Ele era infiel e o era com uma conhecida nossa, do curso de inglês que freqüentávamos juntos - minha amiga, o namorado e eu.
O mundo desabou. Os olhos ficaram fundos. Ele era o seu primeiro amor. Imagino o quanto ela deve ter chorado. Mas ela queria continuar com ele. Queria tentar. E tentou e continuou mesmo, por um curto espaço de tempo. Foi nessa época que ela me ensinou o significado de uma das músicas que hoje mais me emocionam: Por enquanto, da Legião Urbana. Lembro como se fosse hoje. Era um dia chuva, como são muitos dias do início do ano em São Luís. Sentadas na mureta do prédio de Comunicação Social, em frente à lanchonete, ela falou, mexendo o dedo de uma maneira peculiar, como que complementando as palavras e conferindo a elas um certo grau de dogma: "Mudaram as estações/ Nada mudou/ Mas eu sei que alguma coisa aconteceu/ Tá tudo assim/ Tão diferente/ Se lembra quando a gente/ Chegou um dia a acreditar/ Que tudo era pra sempre/ Sem saber/ Que o pra sempre/ Sempre acaba/ Mas nada vai conseguir mudar/ O que ficou/ Quando penso em alguém/ Só penso em você/ E aí, então/ Estamos bem/ Mesmo com tantos motivos/ Pra deixar tudo com está/ Nem desistir nem tentar/ Agora tanto faz/ Estamos indo de volta pra casa". Tudo fez sentido, sem precisar de nenhuma tradução. Nem desistir nem tentar. Imaginem o que eram esses versos na alma de duas garotas de 17 anos.
Rafiza Ribeiro
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22:35
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Giulietta
Giulietta Masina em La strada, de Fellini.
Rafiza Ribeiro
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16:32
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O sobrado de meu avô
O Vinícius disse que a alma dele era um círio que ardia numa catedral em ruínas. Eu digo que a minha alma é um manacá perfumado num jardim abandonado. Lembrei-me de um texto de Guimarães Rosa sobre os jardins abandonados, em que ele se refere ao "jasmim do Imperador - de todos o mais querido". E me lembrei também de um hai-kai de Bashô: "Na velha casa que abandonei as cerejeiras florescem..."
Vez por outra, diante das casas antigas e seus jardins, eu me reencontro de novo comigo mesmo como fui, menino. Foi o que me aconteceu quando visitei, faz poucos dias, São Luís do Maranhão. São Luís: para mim, até aquele momento, nada mais que um nome vazio, uma bolinha no mapa. O nome não me fazia pensar em nada. Aí eu cheguei lá, comecei a perambular pelas ruas do seu centro antigo, e uma alegria começou a tomar conta de mim. O menino que mora em mim, aquele que brincava no sobrado do meu avô, acordou do seu sono. A poesia se virou os meus olhos. Começaram a brincar. Olhavam para as casas e não viam as casas. Viam o sobrado do meu avô. Senti-me voltando para casa. Eliot disse que "ao final de nossas longas explorações chegaremos finalmente ao lugar de onde partimos e o conheceremos então pela primeira vez." Estaria eu voltando? Retornando ao lugar de onde parti? Será que eu, adulto, sou um estranho, exilado, no mundo da modernidade e das casas novas? O sobrado do meu avô, as casas antigas de São Luís - tão distantes no espaço e no tempo! E, no entanto, habitantes de um mesmo tempo, de um mesmo mundo. As casas antigas de São Luís e o sobrado antigo do meu avô não são casas desse mundo, são casas de um mundo que não existe mais, que existe só na saudade onde moram os sonhos. Mas, como a alma é feita de saudade, esse mundo que não existe do lado de fora continua a existir do lado de dentro. E lá estava eu, menino, andando pelas ruas antigas. Dantes tristes de abandono e pobreza agora estavam lá, as casas, diante de mim, alegrinhas e coloridas, exibindo os seus encantos.
(...)
As velhas casas de São Luís me deram olhos de poeta. Quem sabe chegará um dia em que os administradores pedirão conselho aos poetas. Parece que isso aconteceu lá em São Luís do Maranhão...
Trechos da crônica São Luís do Maranhão, de Rubem Alves
Rafiza Ribeiro
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16:12
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