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30.1.04 28.1.04 Encontros e desencontros, de Sofia Coppola, é o tipo de filme que faz você virar fã de todo mundo que participou da sua produção. Simplesmente muito bom. Federico... Federico fellini se divertia com o espanto do seu produtor. - Você está brincando comigo, Federico. - Não, não. É verdade. - Não acredito. - Mas é verdade. Meu próximo filme terá dois personagens. No máximo três. - Eu estou sonhando. - E só um cenário. - Já sei. O Coliseu todo pintado de rosa. - Não um apartamento. - Um apartamento enorme... - Um apartamento de tamanho médio. De classe média. Decoração normal. - Me belisca. Eu estou sonhando. - Você não está sonhando. (...) - Federico! Olhe aí, eu estou até arrepiado. É tudo com o que sempre sonhei! Uma história intimista. Uma produção sem problemas. Principalmente um orçamento baixo. Até que enfim! - Que bom que você gostou. - Tem certeza que não vai querer nem um elefante? - Nem um gato. - Deus seja lovado. - Bem, talvez um gato. - Certo. - Caolho. - Um gato caolho. Não tem problema. - Dez gatos caolhos. - Dez? - Oitocentos. - Federico... - Isso. Oitocentos gatos caolhos. Mil. Os gatos estão por todo o apartamento. O casal não consegue sentar ou dormir por causa dos gatos. Os gatos comem a empregada. Os gatos ocupam todo o prédio. Toda a cidade! É isso! A cidade está tomada por gatos caolhos. Milhões de gatos caolhos. Só o casal ainda não foi comido pelos gatos, porque... - Federico... Luis Fernando Veríssimo 27.1.04
A menina e o passarinho Nosso amor começou certo dia no banco da praça Eu a vi segurando um caderno, sentada com graça Meu olhar encontrou seu olhar mirando um passarinho Machucado, ferido, sangrando, fora do seu ninho Ela levantou e se aproximou da pequenina ave Que tentava em vão atingir o alto da sua árvore Foi então que a vi derrubar um modesto lencinho Que depressa apanhei e tentei lhe entregar com carinho Mas eu pensei que o amor só fosse alegria Nunca imaginei que amando Fosse infeliz algum dia Percebi que o lencinho da moça estava molhado E eram lágrimas que escorriam do seu rosto pálido Condoído tentei lhe falar, mas minha voz não saía Em minha vida inteira jamais moça tão linda eu vira Estendi minha mão para o lenço à donzela entregar Mas senti sua mão muito fria como se ela fosse desmaiar Eu depressa peguei a mocinha e carreguei-a em meu colo E sem querer esmaguei o bichinho que estava no solo Mas eu pensei que o amor só fosse alegria Nunca imaginei que amando Fosse infeliz algum dia Sem saber o que eu iria fazer continuei caminhando A boneca em meus braços caída e eu apaixonado Eis que então um garoto de mim se aproxima correndo "Ela é minha irmã e está muito doente" ele foi logo dizendo Me pediu que levasse a maninha em sua moradia "Minha mãe já morreu, o meu pai se mandou, moramos com uma tia" Logo chegamos e assim que adentrei à singela casinha No sofá estendi com cuidado a minha doce princesinha Mandei o garoto chamar de imediato o doutor da cidade Enquanto a tia chorando agradecia a minha caridade O doutor logo assim que adentrou sua testa franzia E ao sair me cochichou "Ela só tem poucos dias" Já era noite e eu tinha que deixar a formosa donzela Da calçada ainda olhei a menina através da janela No portão entreguei ao irmão o meu endereço "Precisamos curar a menina seja qual for o preço" Mas eu pensei que o amor só fosse alegria Nunca imaginei que amando Fosse infeliz algum dia Passei os dias indo visitar a minha flor mais doente Meu coração cada vez que a via queimava mais que aguardente Nem com remédio nem medicamento a menininha melhorava Cada vez que a pequena me via de tanto chorar os seus olhos inchavam Mas foi numa manhã que eu ia saindo que o irmão me trouxe a notícia A menina já estava morrendo era pra eu ir com urgência Cheguei correndo e a pobre ao me ver falou em seu último suspiro "Nosso amor só está começando agora que eu me retiro" De Nando Reis Queremos livros que nos afetem como um desatre. De Kafka. 26.1.04 Cubismo
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