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22.12.03

Depois dos primeiros anos aqui, nunca mais consegui sentir a sensação original que a cidade me despertou. Um misto de chuva e espaços. Chuva na parada amarela da UnB. As folhas felizes com as gotas que caíam do céu. Não que isso tenha sumido. Hoje o cheiro de mato subiu até o 13º andar, onde moro. Finalmente choveu, depois de dias da maior seca. Repito: não que as imagens do primeiro ano tenham sumido. Eu é que sumi e me absorvi no meio dessas imagens.

Rafiza Ribeiro | 19:00 |


Estrelas



As calejadas mãos de "Seu" Antonio finalmente se moviam para uma rápida carícia nos cabelos de Preta. Dos finos fios cor de mel até as cordas do bandolim foi uma passagem quase imperceptível. O som do bandolim e as cantigas saudavam a noite que chegava, uma noite bonita e com um céu salpicado de estrelas, como previra Preta.
Eu, acompanhava tudo em profundo silêncio. Sem que desse conta fora invadido por aquele pensamento puro da pequena Preta... As crianças têm essa vantagem, com a sua simplicidade nocauteam milhares de filósofos.

Do Marc.

Rafiza Ribeiro | 18:53 |


O poema

VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA



Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a muher que quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei em pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansada
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada.

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Pra a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Rafiza Ribeiro | 18:49 |


Sobre Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada foi o poema de mais longa gestação em toda a minha vida. Vi pela primeira vez esse nome Pasárgada quando tinha os meus dezesseis anos e foi num autor grego. Estava certo de ter sido em Xenofonte, mas já vasculhei duas ou três vezes a Ciropédia e não encontrei a passagem. O douto Frei Damião Berge informou-se que Estrabão e Arriano, autores que nunca li, falam da famosa cidade fundada por Ciro, o antigo, no local preciso em que vencera a Astíages. Ficava a sudeste de Persépolis. Esse nome Pasárgada, que significa "campos dos persas" ou "tesouro dos persas", suscitou na minha imaginação uma paisagem fabulosa, um país de delícias, como o de L' invitation au Voyage de Baudelaire. Mais de vinte anos depois, quando eu morava só em minha casa da Rua do Curvelo, num momento de fundo desânimo, da mais aguda sensação de tudo o que eu não tinha feito na minha vida por motivo de doença, saltou-me de súbito do subconsciente esse grito estapafúrdio: "Vou-me embora pra Pasárgada!". Senti na redondilha a primeira célula de um poema, e tentei realiza-lo, mas fracassei. Já nesse tempo eu não forçava a mão. Abandonei a idéia. Alguns anos depois, em idênticas circunstâncias de desalento e tédio, me ocorreu o mesmo desabafo de evasão da "vida besta". Desta vez o poema saiu sem esforço, como se já estivesse pronto dentro de mim. Gosto deste poema porque vejo nele, sem esforço, toda a minha vida; e também porque parece que nele soube transmitir a tantas outras pessoas a visão e promessa de minha adolescência - essa Pasárgada onde podemos viver pelo sonho o que a via madrasta não nos quis dar. Não sou arquiteto, como meu pai desejava, não fiz nenhuma casa, mas reconstruí, e - não como forma imperfeita neste mundo de aparência -, uma cidade ilustre, que hoje não é mais a Pasárgada de Ciro, e sim, a "minha Pasárgada".

De Manuel bandeira

Rafiza Ribeiro | 18:42 |


Da série eu quero esse livro





















"Possui clima ameno, favorável à prática de esportes como a ginástica, o ciclismo e a natação. Situada em um reino bastante liberal, dispõe de um processo seguro de impedir a concepção, prostitutas bonitas e acesso fácil a drogas como a cocaína e a morfina" (do verbete Pasárgada).

Do livro Dicionário de lugares imaginários, de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi.

Rafiza Ribeiro | 18:33 |


19.12.03

O beijo em movimento


Dica da Emma

Rafiza Ribeiro | 18:12 |


Arrumando a casa

Demorou, mas finalmente achei o meu layout...

Rafiza Ribeiro | 18:00 |


7.12.03

Um urubu pousou no cimo do telhado do hotel onde ele e ela se amavam (inútil: o amor é eterno).
Eles se amavam, isto é, eles se reduziam e ampliavam. Exercitavam-se. Aprendiam-se. Compunham-se. Desvirtuavam-se. Desabriam-se. Sobreexcediam-se. Transpunham-se. Inventavam-se. Pressupunham-se. Imparcializavam-se. Acolhiam-se. Desviviam-se. Pastavam-se. Intercediam-se. Subentendiam-se. Verdeciam-se. Desentristeciam-se. Revertiam-se. Entreconheciam-se. Corrigiam-se. Afluíam-se. Definiam-se. Consentiam-se. Compungiam-se. Ingeriam-se. Traduziam-se. Reagradeciam-se. Surpreendiam-se. Engrandeciam-se. Resolviam-se. Socorriam-se. Riam-se. Mordiam-se. Dissolviam-se. Imortalizavam-se. Encapelavam-se. Inflacionavam-se. Recuperavam-se. Esperançavam-se. Frutificavam-se. Escravizavam-se. Libertavam-se. Animalangelizavam-se.

Trecho da crônica Lua de mel, de Paulo Mendes campos.

Rafiza Ribeiro | 21:05 |


Le baiser (1896)


O primeiro beijo do cinema, com May Irwin e John C. Rice.
Tema único em filme de 16 minutos.

Rafiza Ribeiro | 16:59 |


Adendo

Os leitores do Poiesis são demais. Olha só o comentário da Emma ao último post:

"Da Costa e Silva

Nel Mezzo del Camin...


Passou de leve a Esperança
Pelo meu coração...
Encantou-me no azul do meu sonho de criança:
Ardeu como uma estrela... E era um pobre balão!

Passou de leve a Alegria
Pelo meu coração...
O Amor, dentro em meu ser, como um jardim, floria...
Como é triste, meu Deus, esta recordação!

Passou de leve a Ventura
Pelo meu coração...
Como foi que passou, se a busco com loucura,
Sentindo-me infeliz por desejá-la em vão?

Dois poetas se inspiraram de Dante para...o titulo:

La Divina Commedia

di Dante Alighieri

Inferno
Canto I

Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
ché la diritta via era smarrita.

Mas ambos cometeram o mesmo erro embora tenha encontrado o poema de Bilac com titulo em portugues!

Olavo Bilac

No Meio do Caminho

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma povoada de sonhos eu tinha...

etc.etc.


Demais, não?

Rafiza Ribeiro | 16:44 |


6.12.03

Nel Mezzo Del Camin

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha...

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje, segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.

Olavo Bilac

Rafiza Ribeiro | 02:08 |