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31.10.03 Há algum tempo atrás, comprei um livro da Susan Sontag (Na América), na Feira de Livros de Brasília. Fiquei empolgadíssima, afinal o livro custou apenas R$ 9,00. Alguns dias depois, notei o seguinte: várias páginas do livro, pelo menos dez, estavam em branco. Não poderia mais trocá-lo. A feira havia acabado. Ele ficou na estante, mas nunca foi um rejeitado. De vez em quando folheio suas páginas, inclusive as vazias. Hoje, tive uma idéia. Vou preenchê-las com ilustrações e impressões sobre o livro. Acho que vai ficar uma bela edição. 28.10.03 Algumas flores (Trecho) Houve um tempo em que os namorados se comunicavam através de flores: não sei se diriam sempre coisas belas, mas as palavras de que se utilizavam eram rosas, cravos e cravinas, dálias e violetas, um dicionário imenso e colorido, que se dispunha de diferentes modos, como fazem os poetas. Lia-se em flores como, hoje, através do alfabeto. Talvez com essa linguagem poética as pessoas se entendessem melhor.
27.10.03 Poeminha chuvoso
Uma velhinha por trás da vidraça Jogando paciência com a chuva que cai... Mario Quintana Ré menor Fazendo versinho Querendo carinho Paulo Leminsky Mãos
24.10.03 Roubo "Eu dormia e sonhava que a vida era alegria. Despertei e vi que a vida era serviço. Servi e aprendi que o serviço era alegria. " Rabindranath Tagore Roubei da Bia. O padeiro Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento - mas não encontro o pão costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter lido alguma coisa nos jornais da véspera sobre a "greve do pão dormido". De resto não é bem uma greve, é um lock-out, greve dos patrões, que suspenderam o trabalho noturno; acham que obrigando o povo a tomar seu café da manhã com pão dormido conseguirão não sei bem o que do governo.
17.10.03 Um bode tocando violino
Anna Scott (Julia Roberts): Eu não acredito que você tem essa gravura na sua parede! William (Hugh Grant): Você gosta de Chagall? Anna Scott (Julia Roberts): Gosto. É assim que o verdadeiro amor deve ser. Flutuando em um céu azul escuro. William (Hugh Grant): Com um bode tocando violino. Anna Scott (Julia Roberts): Sim - a felicidade não seria felicidade sem um bode tocando violino. Diálogo extraído de Um lugar chamado Notting Hill Aminek Sua vida inteira era um filme. Não o clichê "minha vida daria um filme". De fato, Aminek já havia nascido em corpo macio de celulóide. Filho de Sarbmos, diretor desvairado, marginalizado e cultuado ao mesmo tempo, que concebeu a sua obra-prima em um só sopro. Aminek era a parte principal dessa obra. Uma personagem criada para durar a vida inteira de seu pai, em um único filme. Assim, Aminek, como Atenas, saltou já maduro da testa de seu criador. Quando Sarbmos o imaginou, Aminek deu um salto e afundou-se na fita diante dele. Sentiu um breve espasmo, algumas dores imaginárias e acomodou-se em um canto daqueles 35 mm oferecidos a ele. Ainda era pobre o ambiente imaginado por Sarbmos. A luz ainda não havia sido feita. Mas Aminek respirava, imaginariamente, cercado pela escuridão, e a sorvia. E Aminek esperava, embora não soubesse o que era espera. Vagava de quadro a quadro, falava a língua dos invisíveis, também ela invisível. Ria-se de si próprio, sem saber sorrir. Deitava-se, sem necessitar de descanso. Foi colocado na moviola. A luz se fez. Aí foram sóis, luas, águas, dragões, violinos, primaveras, enxurradas, nevascas arrasadoras, incensos, incêndios prolongados, relicários, torrentes de palavras, grafismos, trilhas sonoras abruptas, grandes espelhos, animais falantes, ursos cantores, balões, hienas trompetistas, facas caindo do céu, tabuleiros de xadrez, espaços vazios, vulcões chorosos, baleias voadoras, margaridas gigantes, libélulas seresteiras. Toda sorte de belezas e infortúnios foi distribuída entre os frames da longa vida de Aminek. Mas o universo sarbmasiano não o assustou. E assim foi, até o fim dos dias. 16.10.03
Janelas de hotéis (trecho) Quem sabe o que vamos encontrar quando, num hotel desconhecido, abrirmos pela primeira vez a janela do quarto? Por trás das cortinas, das vidraças, das venezianas, há uma inocente imagem desprevenida que se entrega aos nossos olhos - à nossa alma, afinal - com a mais tranqüila naturalidade.
15.10.03 Lembro-me dele "(...) Ele me ensinou quase tudo o que sei: não só o tesouro oculto nas páginas de cada livro fechado, não só a maravilha de cada pequena ou grande descoberta, não só a comunhão com autores e leitores, mas a sabedoria da vida cotidiana."
14.10.03 Três amigas (trecho) Nós nos fizemos amigas pela coincidência de sentimentos na valorização do humilde, no gosto pelo autêntico, na ternura pelas coisas que conservam a sombra de uma presença humana: velhos objetos sem dono, lembranças do passado, restos indefesos do esforço - quase sempre malogrado - de viver. Assim, descobrimos que amávamos o que ninguém mais ama, que tínhamos a alma carregada de retalhos de antigos vestidos, pedaços de louças quebradas, relógios perdidos, retratos irreconhecíveis, livros que se nos desfaziam nas mãos, palavras algum dia ouvidas e como escritos num muro eterno diante de nós. (...) Desejamos que nada se perdesse do que um dia foi feito com a amorosa intenção de durar. Diante de um mundo ingrato e amargo, ávido de imediatismo, ousávamos dirigir também os nossos olhos para o que ia ficando para trás. Para o que se abandonava e esquecia. E ficamos amigas para sempre. De Cecília Meireles 10.10.03 ... 9.10.03 Antônio Maria Também chamado familiarmente Maria, Zé Maria, Menino-Grande - Antônio Maria, que eu chamo "o meu Maria", é de longe o melhor do seu nome. Meu parente através de uma linha de Moraes de Pernambuco que vai assim, faz assim e volta e da qual participa o poeta João Cabral de Melo Neto, esse pernambaioca (se me permitem o neologismo tirado de Pernambuco, Bahia e Carioca) espesso, áspero e agridoce, com um carão de lua que parece sempre bafejado de uma brisa nordestina; esse: a) poeta; b) compositor popular; c) produtor de rádio; d) cronista lírico; e) locutor esportivo; f) escritor de shows; g) grande papo; h) diretor artístico de boate; i) fazedor de jingles; j) homem triste, k) ótimo volante; l) esplêndido amigo; m) desvairado amante; n) M.C.; o) humorista nato; p) "santo homem", como dele diz com terno sotaque o poeta português Carlos Maria de Araújo; q) trabalhador infatigável; r) letrista insigne; s) cantor agradável; t) pródigo absoluto; u) incurável gourmand; v) olho de lince; x) punho de clava; y) superego; z) adorador da vida; - esse menino grande mesmo, que não sei como ainda não descobriu no poema "Les Chercheuses de Poux", de Rimbaud, a sua doce morte diária, porque é homem de rede, mucama, água de coco, cosca no pé, cafuné na cabeça, brisa marinha no cabelo do peito; esse quebrador de tenreiros, físico para bergères antigas tipo me-senta, bem estufadas de modo a ele caber todo e ainda poder pôr os pisadores longe no tamborete; esse imenso tímido de radar sempre ligado, capaz no entanto das maiores se-mostrações esse gigante fraterno que já pôs o braço diante da minha queda e que tem casa, comida e roupa lavada no meu coração; esse grande pecador que se chama Antônio Maria Araújo de Moraes, tem , eu vos asseguro , o estofo de um grande santo. Às vezes posso vê-lo num burel de monge, no pátio colonial de um convento plantado de roseiras, dando de comer na mão a pombas brancas; ou a transitar silenciosamente num claustro seu vasto corpo gasto e purificado de muito amar.
De Vinicus de Moraes Dúvida É impressão minha ou estão todos como que cansados?
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