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31.10.03

...

'- Choras mais pela tua própria dor, pela dor que é tua, choras sobretudo pela tua própria saudade, pela perda encravada em ti.' (De Verenilde Santos Pereira, na obra Não da maneira como aconteceu.). *** Para o meu vô e minha vó. Espero que estejam sentados lado a lado, novamente.***
Fotografia de Mark Lewis

Rafiza Ribeiro | 15:51 |


30.10.03

Edição única

Há algum tempo atrás, comprei um livro da Susan Sontag (Na América), na Feira de Livros de Brasília. Fiquei empolgadíssima, afinal o livro custou apenas R$ 9,00. Alguns dias depois, notei o seguinte: várias páginas do livro, pelo menos dez, estavam em branco. Não poderia mais trocá-lo. A feira havia acabado. Ele ficou na estante, mas nunca foi um rejeitado. De vez em quando folheio suas páginas, inclusive as vazias. Hoje, tive uma idéia. Vou preenchê-las com ilustrações e impressões sobre o livro. Acho que vai ficar uma bela edição.

Rafiza Ribeiro | 10:41 |


28.10.03

Algumas flores (Trecho)


Houve um tempo em que os namorados se comunicavam através de flores: não sei se diriam sempre coisas belas, mas as palavras de que se utilizavam eram rosas, cravos e cravinas, dálias e violetas, um dicionário imenso e colorido, que se dispunha de diferentes modos, como fazem os poetas. Lia-se em flores como, hoje, através do alfabeto. Talvez com essa linguagem poética as pessoas se entendessem melhor.

De Cecília Meireles.

Rafiza Ribeiro | 19:14 |


27.10.03

Poeminha chuvoso








Uma velhinha por trás da vidraça
Jogando paciência com a chuva que cai...


Mario Quintana

Rafiza Ribeiro | 13:44 |


Ré menor

Fazendo versinho
Querendo carinho

Paulo Leminsky

Rafiza Ribeiro | 13:38 |


Mãos

Gif meu

Rafiza Ribeiro | 13:21 |


24.10.03

Roubo

Shiva Shakti




"Eu dormia e sonhava que a vida era alegria.



Despertei e vi que a vida era serviço.



Servi e aprendi que o serviço era alegria. "



Rabindranath Tagore


Roubei da Bia.

Rafiza Ribeiro | 15:49 |


O padeiro

Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento - mas não encontro o pão costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter lido alguma coisa nos jornais da véspera sobre a "greve do pão dormido". De resto não é bem uma greve, é um lock-out, greve dos patrões, que suspenderam o trabalho noturno; acham que obrigando o povo a tomar seu café da manhã com pão dormido conseguirão não sei bem o que do governo.

Está bem. Tomo o meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim. E enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando:

- Não é ninguém, é o padeiro!

Interroguei-o uma vez: como tivera a idéia de gritar aquilo?

"Então você não é ninguém?"

Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido. Muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: "não é ninguém, não senhora, é o padeiro". Assim ficara sabendo que não era ninguém...

Ele me contou isso sem mágoa nenhuma, e se despediu ainda sorrindo. Eu não quis detê-lo para explicar que estava falando com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo eu também, como os padeiros, fazia o trabalho noturno. Era pela madrugada que deixava a redação de jornal, quase sempre depois de uma passagem pela oficina - e muitas vezes saía já levando na mão um dos primeiros exemplares rodados, o jornal ainda quentinho da máquina, como pão saído do forno.

Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque no jornal que levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica ou artigo com o meu nome. O jornal e o pão estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos alegre; "não é ninguém, é o padeiro!"
E assobiava pelas escadas.

P.S.: Hoje uma aluna me apresentou uma mímeses (antiga gíria utilizada pela minha turma de Jornalismo. Ver Platão e Aristóteles) do texto acima, que é do Rubem Braga.

Rafiza Ribeiro | 15:35 |


17.10.03

Um bode tocando violino

Marc Chagall


Anna Scott (Julia Roberts): Eu não acredito que você tem essa gravura na sua parede!
William (Hugh Grant): Você gosta de Chagall?
Anna Scott (Julia Roberts): Gosto. É assim que o verdadeiro amor deve ser. Flutuando em um céu azul escuro.
William (Hugh Grant): Com um bode tocando violino.
Anna Scott (Julia Roberts): Sim - a felicidade não seria felicidade sem um bode tocando violino.


Diálogo extraído de Um lugar chamado Notting Hill

Rafiza Ribeiro | 14:40 |


Aminek

Sua vida inteira era um filme. Não o clichê "minha vida daria um filme". De fato, Aminek já havia nascido em corpo macio de celulóide. Filho de Sarbmos, diretor desvairado, marginalizado e cultuado ao mesmo tempo, que concebeu a sua obra-prima em um só sopro. Aminek era a parte principal dessa obra. Uma personagem criada para durar a vida inteira de seu pai, em um único filme. Assim, Aminek, como Atenas, saltou já maduro da testa de seu criador. Quando Sarbmos o imaginou, Aminek deu um salto e afundou-se na fita diante dele. Sentiu um breve espasmo, algumas dores imaginárias e acomodou-se em um canto daqueles 35 mm oferecidos a ele. Ainda era pobre o ambiente imaginado por Sarbmos. A luz ainda não havia sido feita. Mas Aminek respirava, imaginariamente, cercado pela escuridão, e a sorvia. E Aminek esperava, embora não soubesse o que era espera. Vagava de quadro a quadro, falava a língua dos invisíveis, também ela invisível. Ria-se de si próprio, sem saber sorrir. Deitava-se, sem necessitar de descanso. Foi colocado na moviola. A luz se fez. Aí foram sóis, luas, águas, dragões, violinos, primaveras, enxurradas, nevascas arrasadoras, incensos, incêndios prolongados, relicários, torrentes de palavras, grafismos, trilhas sonoras abruptas, grandes espelhos, animais falantes, ursos cantores, balões, hienas trompetistas, facas caindo do céu, tabuleiros de xadrez, espaços vazios, vulcões chorosos, baleias voadoras, margaridas gigantes, libélulas seresteiras. Toda sorte de belezas e infortúnios foi distribuída entre os frames da longa vida de Aminek. Mas o universo sarbmasiano não o assustou. E assim foi, até o fim dos dias.

Rafiza Ribeiro | 14:29 |


16.10.03


Fotografia de Dicran Babayantz


Janelas de hotéis (trecho)

Quem sabe o que vamos encontrar quando, num hotel desconhecido, abrirmos pela primeira vez a janela do quarto? Por trás das cortinas, das vidraças, das venezianas, há uma inocente imagem desprevenida que se entrega aos nossos olhos - à nossa alma, afinal - com a mais tranqüila naturalidade.

Oh! inesperadas imagens que assinalam o nosso primeiro encontro com uma cidade; que são como estampas de um livro de viagens subitamente aberto; que se tornam inesquecíveis e, muitas vezes, são o anúncio e a síntese de quanto iremos ver depois em nossas andanças pelas ruas, em nossa aproximação de pessoas e objetos.

De Cecília Meireles

Rafiza Ribeiro | 14:28 |


15.10.03


De Norman Rockwell

Rafiza Ribeiro | 12:51 |


Lembro-me dele

"(...) Ele me ensinou quase tudo o que sei: não só o tesouro oculto nas páginas de cada livro fechado, não só a maravilha de cada pequena ou grande descoberta, não só a comunhão com autores e leitores, mas a sabedoria da vida cotidiana."

"(...) Esse é o verdadeiro mestre: o que não castiga mas impele, o que não doutrina mas desperta a curiosidade e a acompanha, o que não impõe mas seduz, o que não quer ser modelo nem exemplo mas companheiro de jornada (...)"

Lya Luft

Rafiza Ribeiro | 10:51 |


14.10.03

Três amigas (trecho)


Nós nos fizemos amigas pela coincidência de sentimentos na valorização do humilde, no gosto pelo autêntico, na ternura pelas coisas que conservam a sombra de uma presença humana: velhos objetos sem dono, lembranças do passado, restos indefesos do esforço - quase sempre malogrado - de viver. Assim, descobrimos que amávamos o que ninguém mais ama, que tínhamos a alma carregada de retalhos de antigos vestidos, pedaços de louças quebradas, relógios perdidos, retratos irreconhecíveis, livros que se nos desfaziam nas mãos, palavras algum dia ouvidas e como escritos num muro eterno diante de nós. (...) Desejamos que nada se perdesse do que um dia foi feito com a amorosa intenção de durar. Diante de um mundo ingrato e amargo, ávido de imediatismo, ousávamos dirigir também os nossos olhos para o que ia ficando para trás. Para o que se abandonava e esquecia. E ficamos amigas para sempre.


De Cecília Meireles

Rafiza Ribeiro | 22:15 |


10.10.03

...


Angry Little Girl

Rafiza Ribeiro | 16:49 |


9.10.03

Antônio Maria

Também chamado familiarmente Maria, Zé Maria, Menino-Grande - Antônio Maria, que eu chamo "o meu Maria", é de longe o melhor do seu nome. Meu parente através de uma linha de Moraes de Pernambuco que vai assim, faz assim e volta e da qual participa o poeta João Cabral de Melo Neto, esse pernambaioca (se me permitem o neologismo tirado de Pernambuco, Bahia e Carioca) espesso, áspero e agridoce, com um carão de lua que parece sempre bafejado de uma brisa nordestina; esse: a) poeta; b) compositor popular; c) produtor de rádio; d) cronista lírico; e) locutor esportivo; f) escritor de shows; g) grande papo; h) diretor artístico de boate; i) fazedor de jingles; j) homem triste, k) ótimo volante; l) esplêndido amigo; m) desvairado amante; n) M.C.; o) humorista nato; p) "santo homem", como dele diz com terno sotaque o poeta português Carlos Maria de Araújo; q) trabalhador infatigável; r) letrista insigne; s) cantor agradável; t) pródigo absoluto; u) incurável gourmand; v) olho de lince; x) punho de clava; y) superego; z) adorador da vida; - esse menino grande mesmo, que não sei como ainda não descobriu no poema "Les Chercheuses de Poux", de Rimbaud, a sua doce morte diária, porque é homem de rede, mucama, água de coco, cosca no pé, cafuné na cabeça, brisa marinha no cabelo do peito; esse quebrador de tenreiros, físico para bergères antigas tipo me-senta, bem estufadas de modo a ele caber todo e ainda poder pôr os pisadores longe no tamborete; esse imenso tímido de radar sempre ligado, capaz no entanto das maiores se-mostrações esse gigante fraterno que já pôs o braço diante da minha queda e que tem casa, comida e roupa lavada no meu coração; esse grande pecador que se chama Antônio Maria Araújo de Moraes, tem , eu vos asseguro , o estofo de um grande santo. Às vezes posso vê-lo num burel de monge, no pátio colonial de um convento plantado de roseiras, dando de comer na mão a pombas brancas; ou a transitar silenciosamente num claustro seu vasto corpo gasto e purificado de muito amar.

09.1953



De Vinicus de Moraes

Rafiza Ribeiro | 16:17 |


Dúvida

É impressão minha ou estão todos como que cansados?

Isso me lembra um trecho de uma conversa de Clarice Lispector com seu filho, tornada pública pela própria, que li há um bom tempo.
O Lispectorzinho (não sei o nome do menino), chegava e dizia assim:

"- Sabe, eu tinha vontade, mamãe, de experimentar às vezes ficar doido.

- Mas pra quê? (Eu sei, eu sei o que você vai dizer, sei porque em mim o meu bisavô deve ter dito o mesmo, eu sei que é através de quinze gerações que uma só pessoa se forma, e que essa futura pessoa me usou para me atravessar e usará o filho de meu filho, assim como um pássaro pousado numa seta que vagarosamente avança.)

- Pra me libertar, assim eu ficava livre...

(Mas haverá a liberdade sem a prévia permissão da loucura. Nós ainda não podemos: somos apenas os gradativos passos dela, dessa pessoa que vem.)"

Acho que, no fundo, todos estão querendo a liberdade de poder enlouquecer um pouquinho. Ou, então, estão sentindo a loucura do dia-a-dia pesar contra sua vontade.

Rafiza Ribeiro | 14:30 |