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30.6.03

Rindo muito

Adoro isso.

Rafiza Ribeiro | 15:17 |



Se você obedece a todas as regras, acaba perdendo toda a diversão.
Katherine Hepburn

Rafiza Ribeiro | 10:29 |


29.6.03

Fada


Fotografia de Connie West

Rafiza Ribeiro | 21:48 |


Receita de domingo

Ter na véspera o cuidado de escancarar a janela. Despertar com a primeira luz cantando e ver dentro da moldura da janela a mocidade do universo, límpido incêndio a debruar de vermelho quase frio as nuvens espessas. A brisa alta, que se levanta, agitar docemente as grinaldas das janelas fronteiras. Uma gaivota madrugadora cruzar o retângulo. Um galo desenhar na hora a parábola de seu canto. Então, dormir de novo, devagar, como se dessa vez fosse para retornar à terra só ao som da trombeta do arcanjo.

Café e jornais devem estar à nossa espera no momento preciso no qual violentamos a ausência do sono e voltamos à tona. Esse milagre doméstico tem de ser. Da área subir uma dissonância festiva de instrumentos de percussão - caçarolas, panelas, frigideiras, cristais anunciando que a química e a ternura do almoço mais farto e saboroso não foram esquecidas. Jorre a água do tanque e, perto deste, a galinha que vai entrar na faca saia de seu mutismo e cacareje como em domingos de antigamente. Também o canário belga do vizinho descobrir deslumbrado que faz domingo.

Enquanto tomamos café, lembrar que é dia de um grande jogo de futebol. Vestir um short, zanzar pela casa, lutar no chão com o caçula, receber dele um soco que nos deixe doloridos e orgulhosos. A mulher precisa dizer, fingindo-se muito zangada, que estamos a fazer uma bagunça terrível e somos mais crianças do que as crianças.

Só depois de chatear suficientemente a todos, sair em bando familiar em direção à praia, naturalmente com a barraca mais desbotada e desmilingüida de toda a redondeza.

Se a Aeronáutica não se dispuser esta manhã a divertir a infância com os seus mergulhos acrobáticos, torna-se indispensável a passagem de sócios da Hípica, em corcéis ainda mais kar do que os próprios cavaleiros.

Comprar para a meninada tudo que o médico e o regime doméstico desaconselham: sorvetes mil, uvas cristalizadas, pirulitos, algodão doce, refrigerantes, balões em forma de pingüim, macaquinhos de pano, papaventos. Fingir-se de distraído no momento em que o terrível caçula, armado, aproximar-se da barraca onde dorme o imenso alemão para desferir nas costas gordas do tedesco uma vigorosa paulada. A pedagogia recomenda não contrariar demais as crianças.

No instante em que a meninada já comece a "encher", a mulher deve resolver ir cuidar do almoço e deixar-nos sós. Notar, portanto, que as moças estão em flor, e o nosso envelhecimento não é uma regra geral. Depois, fechar os olhos, torrar no sol até que a pele adquira uma vida própria, esperar que os insetos da areia nos despertem do meio-sono.

A caminho de casa, é de bom alvitre encontrar, também de calção, um amigo motorizado, que a gente não via há muito tempo. Com ele ir às ostras na Barra da Tijuca, beber chope ou vinho branco.

O banho, o espaçado almoço, o sol transpassando o dia. Desistir à última hora de ver o futebol, pois o nosso time não está em jogo. Ir à casa de um amigo, recusar o uísque que este nos oferece, dizer bobagens, brigar com os filhos dele em várias partidas de pingue-pongue.

Novamente em casa, conversar com a família. Contar uma história meio macabra aos meninos. Enquanto estes são postos em sossego, abrir um livro. Sentir que a noite desceu e as luzes distantes melancolizam. Se a solidão assaltar-nos, subjugá-la; se o sentimento de insegurança chegar, usar o telefone; se for a saudade, abrigá-la com reservas; se for a poesia, possui-la; se for o corvo arranhando o caixilho da janela, gritar-lhe alto e bom som: never more.

Noite pesada. À luz da lâmpada, viajamos. O livro precisa dizer-nos que o mundo está errado, que o mundo devia, mas não é composto de domingos. Então, como uma espada, surgir da nossa felicidade burguesa e particular uma dor viril e irritada, de lado a lado. Para que os dias da semana entrante não nos repartam em uma existência de egoísmos.

Paulo Mendes Campos

Rafiza Ribeiro | 21:43 |


24.6.03

Defeitos

Cartão de Natal personalizado de Zélia Gattai e Jorge Amado. Ano: 1997

Ele não sabia dançar. Esse era o maior defeito dele.

De Zélia Gattai sobre Jorge Amado.

Rafiza Ribeiro | 12:48 |


19.6.03

Maré de sorte

Estou numa sorte tremenda. Consegui comprar uma edição de Os Maias, do Eça, por R$ 16,90. O preço normal é R$ 42,00! Além disso comprei a trilha de Philadelphia por R$ 6,00. O preço normal é R$ 19,90. Motivo da economia: dois preços num mesmo produto. Louvados sejam os direitos do consumidor!

Rafiza Ribeiro | 21:19 |


A verdade e os bons

Hooly Hunter e Jake Gyllenhaal em Moonlight Mile


Joe Nast (Jake Gyllenhaal): The truth is hard. Sometimes it looks so wrong, y'know. The color's off, the style's wrong, but I guess...I guess it's where the good ones live.

Achei essa pérola em Moonlight Mile (Vida que segue), filme com Dustin Hoffman, Susan Sarandon e Holly Hunter, além de Jake Gyllenhaal. Mais um desses filmes que a gente aluga sem saber o porquê, mas acaba se apaixonando.

Rafiza Ribeiro | 20:29 |


15.6.03

Mahatma Gandhi

Nas grandes paredes solenes, olhando,
o Mahatma.

Longe no bosque, adorado entre incensos,
o Mahatma.

Nas escolas, entre os meninos que brincam,
o Mahatma.

Em frente do céu, coberto de flores,
o Mahatma.

Na vaca, na praia, no sal, na oração,
o Mahatma.

De alto a baixo, de mar a mar, em mil idiomas,
o Mahatma.

Construtor de esperança, mestre da liberdade,
o Mahatma.

Noite e dia, nos poços, nos campos, no sol e na lua,
o Mahatma.

No trabalho, no sonho, falando lúcido,
o Mahatma.

De dentro da morte falando vivo,
o Mahatma.

Na bandeira aberta a um vento de música,
o Mahatma.

Cidades e aldeias escutam atentas:
é o Mahatma.



Mais um poema escrito na Índia. De Cecília Meireles

Rafiza Ribeiro | 14:58 |


14.6.03

Acho que estou com vontade de morar por uns tempos na Noruega.
E também de fazer uma bela viagem à Índia.

Rafiza Ribeiro | 16:42 |


Quando acordou, um pouquinho depois, a janela estava aberta e não havia ninguém sentado ao lado da cama.
Logo o anjo Ariel entrou flutuando pela janela aberta e sentou-se na escrivaninha. Cecília levantou-se da cama e ficou bem ereta.
"Você voltou?", perguntou ela.
Ele não respondeu diretamente.
"Você gostaria de sair voando comigo?"
Ela riu.
"Mas eu não consigo voar."
O anjo Ariel lhe deu um sorriso compreensivo.
"Já é hora de acabar com essas bobagens, Cecília. Venha até aqui."
E assim Cecília foi até o anjo Ariel.
Ele pegou na sua mão, e dali a um instante estavam voando livres, saindo pela janela aberta, passando por cima do celeiro e vendo a paisagem todinha lá embaixo.
Era de manhã bem cedo, logo antes de nascer o sol, num novo dia de inverno.

(...)

Cecília disse: "Agora nós somos como os dois corvos de Odin".
"Isso mesmo", respondeu o anjo Ariel. "E quando nos sentarmos à mão direita de Deus, vamos lhe contar tudo o que vimos."
Um pouco depois entraram pela janela aberta do quarto e sentaram no peitoril, bem como Ariel tinha feito da primeira vez.
Os dois olharam para a cama. Cecília não achou nem um pouco estranho ver a si mesma ali deitada, com seu cabelo loiro espalhado pelo travesseiro. Sobre o acolchoado cor-de-rosa, tinham posto a velha estrela de Natal.
"Concordo que sou bonita quando estou dormindo", disse ela.
Ariel a abraçava bem apertado. Olhou para ela e disse: "Sentada aqui você é ainda mais bonita".
"Mas isso eu não posso ver, porque agora estou do outro lado do espelho."
Assim que Cecília disse isso, Ariel soltou sua mão.
"Você parece uma esplêndida borboleta que voou da mão de Deus."
Ela olhou ao redor do quarto. Uma faixa do sol da manhã ia se derramando pela escrivanhinha e pelo chão.
Debaixo da cama, alguns raios de luz encontraram o caderninho chinês. Cecília viu como os finos fios de seda brilhavam e rebrilhavam.

Trecho de Através do espelho, de Jostein Gaarder

Rafiza Ribeiro | 16:40 |


13.6.03

Céu


Fotografia de Phil Babb

Rafiza Ribeiro | 13:59 |


10.6.03

Amizade

Quando o silêncio a dois não se torna incômodo

Amor

Quando o silêncio a dois se torna cômodo

Mario Quintana

Rafiza Ribeiro | 00:15 |


Escolha seu sonho. Que nome encantado para um livro. Todo ele muito cheio de promessas.
Na contracapa, a tecelã dos sonhos: Cecília.
Da solidão aparece aqui como a melhor tradução para a manta suave que Cecília vai tecendo em cada crônica. Mais que isso, Da solidão está aqui mesmo por ser música para a foto da contracapa desta velha edição que tenho em minhas mãos (1964).
Nela, Cecília aparece num jardim, com um longo colar de contas escuras, sorrindo muito. Dentes alvissímos. Cabelos presos. Vestido com lacinho.
Cecília está feliz como eu nunca havia visto e toda a idéia de solidão tristonha se dissipa nela.
Há um prazer na vida que vem das pequenas coisas, dos pequenos sons, das pequenas cores, dos pequenos sustos, de grandes viveres.
Em Escolha seu sonho, Cecília parece dizer, como o velho Drummond, que a nossa história, a de cada um, é mais bonita (muito mais) que a de Robinson Crusoé.

Rafiza Ribeiro | 00:12 |


9.6.03

Da solidão (Trecho)

Há muitas pessoas que sofrem do mal da solidão. Basta que em redor delas se arme o silêncio, que não se manifeste aos seus olhos nenhuma presença humana, para que delas se apodere imensa angústia: como se o peso do céu desabasse sobre a sua cabeça, como se dos horizontes se levantasse o anúncio do fim do mundo.
No entanto, haverá na terra verdadeira solidão? Não estamos todos cercados por inúmeros objetos, por infinitas formas da Natureza e o nosso mundo particular não está
cheio de lembranças, de sonhos, de raciocínios, de idéias, que impedem uma total solidão?
Tudo é vivo e tudo fala, em redor de nós, embora com vida e voz que não são humanas, mas que podemos aprender a escutar, porque muitas vezes essa linguagem secreta ajuda a esclarecer o nosso próprio mistério. Como aquele Sultão Mamude, que entendia a fala dos pássaros, podemos aplicar toda a nossa sensibilidade a esse aparente vazio de solidão: e pouco a pouco nos sentiremos enriquecidos.

(...)

Façamo-nos também desse modo videntes: olhemos devagar para a cor das paredes, o desenho das cadeiras, a transparência 'das vidraças, os dóceis panos tecidos sem
maiores pretensões. Não procuremos neles a beleza que arrebata logo o olhar, o equilíbrio de linhas, a graça das proporções: muitas vezes seu aspecto - como o das criaturas humanas - é inábil e desajeitado. Mas não é isso que procuramos, apenas: é o seu sentido íntimo que tentamos discernir. Amemos nessas humildes coisas a carga de experiências que representam, e a repercussão, nelas sensível, de tanto trabalho humano, por infindáveis séculos.
Amemos o que sentimos de nós mesmos, nessas variadas coisas, já que, por egoístas que somos, não sabemos amar senão aquilo em que nos' encontramos. Amemos o antigo encantamento dos nossos olhos infantis, quando começavam a descobrir o mundo: as nervuras das madeiras, com seus caminhos de bosques e ondas e horizontes; o desenho dos azulejos; o esmalte das louças; os tranqüilos, metódicos -telhados ... Amemos o rumor da água que corre, os sons das máquinas, a inquieta voz dos animais, que desejaríamos traduzir.
Tudo palpita em redor de nós, e é como um dever de amor aplicarmos o ouvido, a vista, o coração a essa infinidade de formas naturais ou artificiais que encerram seu segredo, suas memórias, suas silenciosas experiências. A rosa que se despede de si mesma, o espelho onde pousa o nosso rosto, a fronha por onde se desenham os sonhos de quem dorme, tudo, tudo é um mundo com passado, presente, futuro, pelo qual transitamos atentos ou distraídos. Mundo delicado, que não se impõe com violência: que aceita a nossa frivolidade ou o nosso respeito; que espera que o descubramos, sem se anunciar nem pretender prevalecer; que pode ficar para sempre ignorado, sem que por isso deixe de existir; que não faz da sua presença um anúncio exigente "Estou aqui! estou aqui!". Mas, concentrado em sua essência, só se revela quando os nossos sentidos estão aptos para o descobrirem. E que em silêncio nos oferece sua múltipla companhia, generosa e invisível.
Oh! se vos queixais de solidão humana, prestai atenção, em redor de vós, a essa prestigiosa presença, a essa copiosa linguagem que de tudo transborda, e que conversará convosco interminavelmente.

Cecília Meireles, na obra Escolha seu sonho

Rafiza Ribeiro | 23:56 |


Para Emma Meunier


Obrigada pelos comentários, ;O)

Rafiza Ribeiro | 23:50 |


6.6.03

Aparecimento

A casa cheirava a especiarias
e o copeiro deslizava descalço,
levitava em silêncio,
- anjo da aurora entre paredes brancas.

Crepitava na mesa a manga verde
e a esbraseada pimenta.

O dono da casa era ao mesmo tempo
inatual como um rei antigo
e simples e próximo como um parente.
Sua mulher ainda usava um diamante na narina
e em sua cabeça pousavam muitas coroas
de histórias antigas e declarações de amor.

E havia a moça, pássaro, princesa,
com uma diáfana voz de sol e flores,
que apenas sussurrava.

Mas no dia seguinte
haveria talvez uma criança,
(Estava ali mesmo, naquele mundo de ouro e seda,
sob aquela diáfana voz de sol e flores.)

Ia nascer amanhã uma criança.

E a casa, no meio do campo,
estendia mil braços ternos e graves
para o céu, para o rio, para o vento,
para os pais dos nascimentos,
à espera dessa criança
nua e pequenina,
que apareceria de olhos fechados
com um breve grito:

já sua alma.

E subiam para Deus fios de incenso, azuis.


Cecília de novo. Na Índia.

Rafiza Ribeiro | 23:51 |


O canto dos tecedores


Fotografia de Bert Hardy

Rafiza Ribeiro | 10:26 |


Canto para os tecedores de cachemir

Finos dedos ágeis,
como beija-flores,
voais sobre as sedas,
sobre as lãs macias,
com finas agulhas,
ó bordadores,
semeais primaveras,
recolheis primores.

Os jardins do mundo
aos vossos bordados
não são superiores,
ó bordadores,
e voais, finos dedos,
para longe, sempre,

para novas sedas,
como beija-flores,
com o bico luzente
de finas agulhas,
ó bordadores,
atirando fios,
os fios do arco-íris,
recolhendo cores,
desenhando pontos,
inventando flores
que não morrem nunca,
ó bordadores,
de sol nem de chuva
nem de outros rigores.

De Cecília Meireles. Um dos Poemas escritos na Índia.

Rafiza Ribeiro | 10:23 |


5.6.03

A moça tecelã (Trecho)

Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.

Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.

Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.

Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos recordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.

Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.

Assim, jogando a lançadeira de um lado para o outro e batendo os grandes pentes do tear para a frente e para trás, a moça passava seus dias.

Marina Colasanti

Rafiza Ribeiro | 11:16 |


3.6.03













Caty agora está aqui!

Rafiza Ribeiro | 11:28 |


1.6.03



Moça Lua

Naquele tempo não existiam estrelas ou lua. E a noite era tão escura que todos se encolhiam dentro de casa com medo dela. Na tribo, só uma índia não tinha medo. Ela era uma índia clara e muito bonita, mas era diferente das outras. E por ser diferente, nenhum índio queria namorar com ela, e as índias não conversavam com ela. Sentindo-se só, começou a andar pelas noites. Todos ficavam surpresos com aquilo, e quando ela voltava, dizia a todos que não havia perigo.

Mas havia outra índia, feia e escura, que ficou com inveja da índia clara. E por isso, tentou sair uma noite também. Mas não conseguiu enxergar na escuridão e tropeçou nas pedras, cortou os pés nos gravetos e se assustou com os morcegos. Cheia de raiva, foi conversar com a cascavel.

- Cascavel, quero que morda o calcanhar da índia branca para que ela fique escura, feia e velha, e que ninguém mais goste dela.

Na mesma hora, a cascavel se pôs a esperar a índia clara. Quando ela passou, deu o bote. Mas a índia tinha os pés calçados com duas conchas e os dentes da cobra se quebraram.

A cobra começou a amaldiçoá-la e a índia perguntou porque ia fazer aquilo com ela. A cascavel respondeu:

- Porque a índia escura mandou. Ela não gosta de você e quer que você fique escura, feia e velha.

A índia branca ficou muito triste com tudo aquilo. Não poderia viver com pessoas que não gostassem dela. E não agüentava mais ser diferente dos outros índios, tão branca e sem medo do escuro.

Então, fez uma linda escada de cipós e pediu para que sua amiga coruja a amarasse no céu. Subiu tanto, que ao chegar ao céu estava exausta. Então dormiu numa nuvem e se transformou num belíssimo astro redondo e iluminado. Era a lua.

A índia escura olhou para ela e ficou cega. Foi se esconder com a cascavel em um buraco. E os índios adoraram a lua, que iluminava suas noites, e sonharam em construir outra escada para poder ir ao céu encontrar a bela índia.

Walmir Ayala



P.S.: essa é uma história que fez parte da minha infância. Fazia parte de um livro de Português, mas não me lembro nem em qual série da escola eu estava, nem que livro era esse. Hoje, não sei porque, fiquei pensando nessa lenda... Procurei e achei entre velhos escritos. Ainda é uma história muito bonita para mim.

Rafiza Ribeiro | 22:34 |


I

Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre 2 lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
etc
etc
etc
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

De Manoel de Barros, no poema Uma didática da invenção.

Rafiza Ribeiro | 22:27 |