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30.4.03 Este é o lenço (Integral) Este é o lenço de Marília, pelas suas mãos lavrado, nem a ouro nem a prata, somente a ponto cruzado. Este é o lenço de Marília para o Amado. Em cada ponta, um raminho, preso num laço encarnado; no meio, um cesto de flores, por dois pombos transportado. Não flores de amor-perfeito, mas de malogrado! Este é o lenço de Marília: bem vereis que está manchado: será do tempo perdido? será do tempo passado? Pela ferrugem das horas? ou por molhado em águas de algum arroio singularmente salgado? Finos azuis e vermelhos do largo lenço quadrado, - quem pintou nuvens tão negras neste pano delicado, sem dó de flores e de asas nem do seu recado? Este é o lenço de Marília, por vento de amor mandado. Para viver de suspiros foi pela sorte fadado: breves suspiros de amante, - longos, de degredado! Este é o lenço de Marília nele vereis retratado o destino dos amores por um lenço atravessado: que o lenço para os adeuses e o pranto foi inventado. Olhai os ramos de flores de cada lado! E os tristes pombos, no meio, com o seu cestinho parado sobre o tempo, sobre as nuvens do mau fado! Onde está Marília, a bela? E Dirceu, com a lira e o gado? As altas montanhas duras, letra a letra, têm contado sua história aos ternos rios, que em ouro a têm soletrado... E as fontes de longe miram as janelas do sobrado. Este é o lenço de Marília para o Amado. Eis o que resta dos sonhos: um lenço deixado. Pombos e flores, presentes. Mas o resto, arrebatado. Caiu a folha das árvores, muita chuva tem gastado pedras onde houvera lágrimas. Tudo está mudado. Este é o lenço de Marília como foi bordado. Só nuvens, só muitas nuvens vêm pousando, têm pousado entre os desenhos tão finos de azul e encarnado. Conta já século e meio de guardado. Que amores como este lenço têm durado, se este mesmo está durando? mais que o amor representado? Cecília Meireles 28.4.03 Bibelô
Jardinagem Nas modernas cidades o jardim deixou de ser o local privado do encontro amoroso ou da meditação, recolhimento e reposição das energias pelo contato ordenado com a beleza e a fecundidade (não nos esqueçamos de que Zeus casou-se com Hera no Jardim das Hespérides, símbolo da fecundidade); para ser praça, pracinha, local de homenagens aos pais da pátria e ainda de algum recolhimento para velhos, crianças ou vagabundos poéticos.
Crescer Quando eu era menino, os mais velhos perguntavam: - Que é que você quer ser quando crescer? Hoje não me perguntam mais. Se me perguntassem, eu diria que quero ser menino. Fernando Sabino 27.4.03 A melhor definição Eu me sentia oprimido com tudo o que acontecia. Eu me lembro... Do que eu me lembro mesmo? Você conhece a sensação? Não é de tristeza ou alegria. É como estar no meio do nada. (...) Eu estava sentindo um vazio, não sei porquê, enquanto eu esperava que você aparecesse. Para me lembrar de que você está aqui sempre. (...) Quem foi que amou você por toda a vida? Trecho do livro Você nunca está só, de Antoinette Sampson Consolo na praia Vamos, não chores A infância está perdida. A mocidade está perdida. Mas a vida não se perdeu. O primeiro amor passou. O segundo amor passou. O terceiro amor passou. Mas o coração continua. Perdeste o melhor amigo. Não tentaste qualquer viagem. Não possuis casa, navio, terra. Mas tens um cão. Algumas palavras duras, em voz mansa, te golpearam. Nunca, nunca cicatrizam. Mas, e o humor? A injustiça não se resolve. À sombra do mundo errado murmuraste um protesto tímido. Mas virão outros. Tudo somado, devias precipitar-te - de vez - nas águas. Estás nu na areia, no vento... Dorme, meu filho. Carlos Drummond de Andrade 25.4.03 Meias
Os sapatos do Quintana XII Para Erico Veríssimo O dia abriu seu pára-sol bordado De nuvens e de verde ramaria. E estava até um fumo, que subia, Mi-nu-ci-o-sa-men-te desenhado. Depois surgiu, no céu azul arqueado, A Lua - a Lua! - em pleno meio-dia. Na rua, um menininho que seguia Parou, ficou a olhá-la admirado... Pus meus sapatos na janela alta, Sobre o rebordo... Céu é que lhes falta Pra suportarem a existência rude! E eles sonham, imóveis, deslumbrados, Que são dois velhos barcos, encalhados Sobre a margem tranqüila de um açude... Calçada de verão Quando o tempo está seco, os sapatos ficam tão contentes que se põem a cantar. Libertação A morte é a libertaçäo total: A morte é quando a gente pode, afinal, Estar deitado de sapatos... Da cor Há uma cor que não vem nos dicionários. É essa indefinível cor que têm todos os retratos, os figurinos da última estação, a voz das velhas damas, os primeiros sapatos, certas tabuletas, certas ruazinhas laterais: - a cor do tempo... De Mario Quintana 24.4.03 Palavras Palavra dentro da qual estou a milhões de anos é árvore. Pedra também. Eu tenho precedências para pedra. Pássaro também. Não posso ver nenhuma dessas palavras que não leve um susto. Andarilho também. Não posso ver a palavra andarilho que não tenha vontade de dormir debaixo de uma árvore. Que eu não tenha vontade de olhar com espanto, de novo, aquele homem do saco a passar como um rei de andrajos nos arruados de minha aldeia. E tem mais uma: as andorinhas, pelo que sei, consideram os andarilhos como árvore. Manoel de Barros 22.4.03 De vez em quando é bom saber dizer... 21.4.03 Tanto de amor se disse (Trecho) Li há muito tempo, num qualquer livro de poesia, dois versos que de vez em quando me vêm à cabeça, a propósito de muitas coisas a que vou assistindo. Não sei exactamente quem os escreveu, nem com que intenção foi escrito o poema de que faziam parte, o qual, de resto, esqueci totalmente. Mas os versos falam, mesmo sem a sua moldura original:
20.4.03 FELIZ PÁSCOA! 19.4.03 Inspiração
Uma arte A arte de perder não tarda aprender; tantas coisas parecem feitas com o molde da perda que o perdê-las não traz desastre. Perca algo a cada dia. Aceita o susto de perder chaves, e a hora passada embalde. A arte de perder não tarda aprender. Pratica perder mais rápido mil coisas mais: lugares, nomes, onde pensaste de férias ir. Nenhuma perda trará desastre. Perdi o relógio de minha mãe. A última, ou a penúltima, de minhas casas queridas foi-se. Não tarda aprender, a arte de perder. Perdi duas cidades, eram deliciosas. E, pior, alguns reinos que tive, dois rios, um continente. Sinto sua falta, nenhum desastre. - Mesmo perder-te a ti (a voz que ria, um ente amado), mentir não posso. É evidente: a arte de perder muito não tarda aprender, embora a perda - escreva tudo! - lembre desastre. Elizabeth Bishop 18.4.03 When I dance je t'aime encore* *Trecho da música Je t'aime encore (Eu ainda te amo), de Jean-Jacques Goldman, cantada por Celine Dion.
Fotografia: Hulton Archive, com montagem minha. A maior dor do vento é não ser colorido Do Quintana, de novo. Canção do dia de sempre Para Norah Lawson Tão bom viver dia a dia... A vida, assim, jamais cansa... Viver tão só de momentos Como essas nuvens do céu... E só ganhar, toda a vida, Inexperiência... esperança... E a rosa louca dos ventos Presa à copa do chapéu. Nunca dês nome a um rio: Sempre é outro rio a passar. Nada jamais continua, Tudo vai recomeçar! E sem nenhuma lembrança Das outras vezes perdidas, Atiro a rosa do sonho Nas tuas mãos distraídas... Mario Quintana 17.4.03 !!! Wallpapers atualizados... O vestido No armário do meu quarto escondo de tempo e traça meu vestido estampado em fundo preto. É de seda macia desenhada em campânulas vermelhas à ponta de longas hastes delicadas. Eu o quis com paixão e o vesti como um rito, meu vestido de amante. Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido. É só tocá-lo, volatiza-se a memória guardada: eu estou no cinema e deixo que segurem minha mão. De tempo e traça meu vestido me guarda. Adélia Prado 15.4.03 Com que terá sonhado o Tempo até agora?
Sonhado com a espada, cujo melhor lugar é o verso... Sonhado com os gregos que descobriram o diálogo e a dúvida... Sonhado com a felicidade que tivemos ou que sonhamos ter tido... Sonhado com ética e com as metáforas do mais estranho dos homens, o que morreu numa tarde, em uma cruz... Sonhado com o livro, esse espelho que sempre nos revela outra cara... Sonhado com o número da arena... Sonhado com o jasmim que não pode saber que com ele sonham... Sonhado com os passos do labirinto... Sonhado com o nome secreto de Roma, que era sua verdadeira muralha... Sonhado com a vida dos espelhos... Sonhado com mapas que Ulisses não teria compreendido... Sonhado com o mar e com a lágrima. Sonhado com o cistal. Sonhado que Alguém com ele sonha. Jorge Luis Borges 14.4.03 Constatação Algum dia vós sereis velhos o suficiente para começar a ler outra vez contos de fadas. C. S. Lewis Crescer São mínimas coisas entrançando a vida: o passo no corredor, a mão que acalma, o corpo que arde e a apazigua. O sono, O sonho. Silêncios. Solidões. O filho que se faz e vê, com certo espanto, assumir identidade própria. O carro. A casa. A árvore plantada a quatro mãos, e um dia seus ramos brincam no telhado. Lya Luft 13.4.03 A Vinha Vermelha Clique nas figuras acima para ver A Vinha Vermelha, a tela de Van Gogh mencionada no post abaixo. Carta Meu caro Vincent:
Carandiru
Isso aqui ô ô G#m7 F#m7 B7 É um pouquinho de Brasil iá iá F#m7 B7 E Desse Brasil que canta e é feliz, feliz, feliz Bm7 E7 A Am É também um pouco de uma raça D7 E G#m7 Que não tem medo de fumaca ai ai F3m7 B7 E E não se entrega não (Ary Barroso) .............................. "Só podem contar o que aconteceu a polícia, os presos e Deus. Eu ouvi apenas os presos." (Drauzio Varella) .............................. Carandiru, o filme do Babenco, é um soco no estômago. Um soco que vale a pena. 11.4.03 Familiar to millions (Plagiando Oasis) Ando cansada.
10.4.03 O desparecido Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim.
Rubem Braga 9.4.03 Você conhece esta imagem?
Com certeza você já deve ter visto esta imagem várias vezes, circulando em e-mails e sites na Internet. Talvez o que você não saiba é que o surpreendente iceberg é, na verdade, um trabalho digital, que funde num só dois icebergs distintos. A parte de cima foi fotografada na Antártida, e a de baixo, no Alasca. A obra é do professor de fotografia Ralph Clevenger, que já publicou diversos trabalhos na National Geographic. Para saber mais, clique aqui. Silêncio (Título meu) Silêncio, estou escrevendo e não sei se destas palavras sairá como mágica um poema uma reportagem ou um recado não sei em que se transformará este grupo de sujeitos e advérbios que buscam aqui reunidos decifrar todos os meus medos silêncio, estou me escutando e quem fala são meus dedos Martha Medeiros Por e-mail
Recebi hoje, de um aluno, pelo correio eletrônico. Bom presente para quem chegou em casa cansada... 8.4.03 Revival Por não estarem distraídos Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos. Clarice Lispector (Texto publicado no antigo Poiesis do Weblogger) !!!
7.4.03 Sete de abril, dia do Jornalista Comecei a trabalhar muito nova na profissão, me afastei por conta do mestrado e hoje ensino aqueles que serão meus colegas no futuro. Sinto falta das redações, dos cafés e uma rodinha, da constante lapidação dos textos (meu e dos outros ;O)), de ir para a rua... Por coincidência, comprei hoje o livro do Ricardo Noblat e achei isso aqui lá dentro:
1.4.03 Sementes de trigo espargidas ao vento
Norbert Elias
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