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30.4.03


O chapéu do Indiana Jones? O vestido da Marilyn que levanta com o vento do metrô?
Qual é o seu objeto cinematográfico do desejo?




Os sapatinhos rubi de Dorothy em O mágico de Oz,
para estar em casa sempre que desejar.

Rafiza Ribeiro | 16:35 |


Tostines

Marília era de Dirceu ou Dirceu era de Marília?

Rafiza Ribeiro | 16:26 |


Este é o lenço (Integral)

Este é o lenço de Marília,
pelas suas mãos lavrado,
nem a ouro nem a prata,
somente a ponto cruzado.
Este é o lenço de Marília
para o Amado.

Em cada ponta, um raminho,
preso num laço encarnado;
no meio, um cesto de flores,
por dois pombos transportado.
Não flores de amor-perfeito,
mas de malogrado!

Este é o lenço de Marília:
bem vereis que está manchado:
será do tempo perdido?
será do tempo passado?
Pela ferrugem das horas?
ou por molhado
em águas de algum arroio
singularmente salgado?

Finos azuis e vermelhos
do largo lenço quadrado,
- quem pintou nuvens tão negras
neste pano delicado,
sem dó de flores e de asas
nem do seu recado?

Este é o lenço de Marília,
por vento de amor mandado.
Para viver de suspiros
foi pela sorte fadado:
breves suspiros de amante,
- longos, de degredado!

Este é o lenço de Marília
nele vereis retratado
o destino dos amores
por um lenço atravessado:
que o lenço para os adeuses
e o pranto foi inventado.

Olhai os ramos de flores
de cada lado!
E os tristes pombos, no meio,
com o seu cestinho parado
sobre o tempo, sobre as nuvens
do mau fado!

Onde está Marília, a bela?
E Dirceu, com a lira e o gado?
As altas montanhas duras,
letra a letra, têm contado
sua história aos ternos rios,
que em ouro a têm soletrado...

E as fontes de longe miram
as janelas do sobrado.

Este é o lenço de Marília
para o Amado.

Eis o que resta dos sonhos:
um lenço deixado.

Pombos e flores, presentes.
Mas o resto, arrebatado.

Caiu a folha das árvores,
muita chuva tem gastado
pedras onde houvera lágrimas.
Tudo está mudado.

Este é o lenço de Marília
como foi bordado.
Só nuvens, só muitas nuvens
vêm pousando, têm pousado
entre os desenhos tão finos
de azul e encarnado.
Conta já século e meio
de guardado.

Que amores como este lenço
têm durado,
se este mesmo está durando?
mais que o amor representado?

Cecília Meireles

Rafiza Ribeiro | 16:24 |


28.4.03

Bibelô



Fotografia de Alex Popkov

Rafiza Ribeiro | 10:21 |


Jardinagem

Nas modernas cidades o jardim deixou de ser o local privado do encontro amoroso ou da meditação, recolhimento e reposição das energias pelo contato ordenado com a beleza e a fecundidade (não nos esqueçamos de que Zeus casou-se com Hera no Jardim das Hespérides, símbolo da fecundidade); para ser praça, pracinha, local de homenagens aos pais da pátria e ainda de algum recolhimento para velhos, crianças ou vagabundos poéticos.
Os donos da vontade dos tratores destroem esperanças e liberdades. Unidos contra eles, os homens e as mulheres de boa vontade ajudarão a manter viva a esperança humana expressa na vida que lateja em cada planta; na planta que viceja em cada jardim; no jardim que é paz e descanso: espaço sem angústia, pausa para a respiração. O jardim é o símbolo da liberdade serena. Precisamos de jardins. Internos. Nos homens e nas instituições.

Artur da Távola

Rafiza Ribeiro | 10:18 |


Crescer

Quando eu era menino, os mais
velhos perguntavam:

- Que é que você quer ser quando crescer?

Hoje não me perguntam mais. Se
me perguntassem, eu diria que
quero ser menino.

Fernando Sabino

Rafiza Ribeiro | 10:10 |


27.4.03

A melhor definição


Meu avô? Qualquer palavra é pequena diante daquele homem...Para onde você foi?

Eu me sentia oprimido
com tudo o que acontecia.

Eu me lembro...
Do que eu me lembro mesmo?

Você conhece a sensação?
Não é de tristeza ou alegria.
É como estar no meio do nada.

(...)

Eu estava sentindo um vazio, não sei porquê,
enquanto eu esperava que você aparecesse.
Para me lembrar de que você está aqui
sempre.

(...)

Quem foi que amou você por toda a vida?



Trecho do livro Você nunca está só, de Antoinette Sampson

Rafiza Ribeiro | 10:25 |


Consolo na praia


Vamos, não chores
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humor?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te - de vez - nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

Carlos Drummond de Andrade

Rafiza Ribeiro | 09:42 |


25.4.03

Meias


Fotografia: arquivo da National Geographic, disponibilizado pela Getty Images

Rafiza Ribeiro | 11:01 |


Os sapatos do Quintana

XII

Para Erico Veríssimo


O dia abriu seu pára-sol bordado
De nuvens e de verde ramaria.
E estava até um fumo, que subia,
Mi-nu-ci-o-sa-men-te desenhado.

Depois surgiu, no céu azul arqueado,
A Lua - a Lua! - em pleno meio-dia.
Na rua, um menininho que seguia
Parou, ficou a olhá-la admirado...

Pus meus sapatos na janela alta,
Sobre o rebordo... Céu é que lhes falta
Pra suportarem a existência rude!

E eles sonham, imóveis, deslumbrados,
Que são dois velhos barcos, encalhados
Sobre a margem tranqüila de um açude...


Calçada de verão

Quando o tempo está seco, os sapatos ficam tão contentes que se põem a cantar.


Libertação

A morte é a libertaçäo total:
A morte é quando a gente pode, afinal,
Estar deitado de sapatos...


Da cor

Há uma cor que não vem nos dicionários.
É essa indefinível cor que têm todos os
retratos, os figurinos da última estação,
a voz das velhas damas, os primeiros
sapatos, certas tabuletas, certas ruazinhas
laterais: - a cor do tempo...

De Mario Quintana

Rafiza Ribeiro | 10:42 |


24.4.03

Palavras

Palavra dentro da qual estou a milhões de anos é árvore.
Pedra também.
Eu tenho precedências para pedra.
Pássaro também.
Não posso ver nenhuma dessas palavras que não leve um susto.

Andarilho também.
Não posso ver a palavra andarilho que não tenha vontade de dormir debaixo de uma árvore.
Que eu não tenha vontade de olhar com espanto,
de novo, aquele homem do saco a passar como um rei de andrajos
nos arruados de minha aldeia.

E tem mais uma: as andorinhas,
pelo que sei, consideram os andarilhos como árvore.

Manoel de Barros

Rafiza Ribeiro | 09:16 |


22.4.03

De vez em quando é bom saber dizer...


De Robert Yamarone

Rafiza Ribeiro | 22:45 |


21.4.03

Tanto de amor se disse (Trecho)

Li há muito tempo, num qualquer livro de poesia, dois versos que de vez em quando me vêm à cabeça, a propósito de muitas coisas a que vou assistindo. Não sei exactamente quem os escreveu, nem com que intenção foi escrito o poema de que faziam parte, o qual, de resto, esqueci totalmente. Mas os versos falam, mesmo sem a sua moldura original:

"Tanto de amor se disse / que não sei como dizer que amor é outra coisa".

(...)

Os homens descobriram há muitos séculos que o amor é o mais importante de tudo; que é ele que move o mundo; que é ele que guia os passos dos humanos; que nada mais interessa. Mas temos assistido a uma mudança subterrânea: continuaram a dar a mesma importância ao amor, mas mudaram subtilmente o conteúdo da palavra. Chamaram amor a outras coisas, à superfície do amor, à escória do amor.

Construíram uma mentira gigantesca.

Têm chamado amor a coisas nas quais não conseguimos descobrir senão egoísmo, equilíbrio de egoísmos, negócio.

Quem diz que amou só porque sentiu prazer não entende nada de amor. Porque quer colher, enquanto o amor é uma força que leva a semear.

Quem dá porque quer receber, ou quem se dá só enquanto dar não dói, é um comerciante. Calcula. O que equivale a dizer que nunca amou. E que a pessoa amada é uma mercadoria - sujeita, como as mercadorias, a critérios de qualidade e a prazos de validade.

Daqui.

Rafiza Ribeiro | 23:29 |




Comunhão

Os verdadeiros poetas não lêem outros poetas. Os verdadeiros poetas lêem os pequenos anúncios dos jornais.

Mario Quintana

Rafiza Ribeiro | 22:56 |


20.4.03

FELIZ PÁSCOA!

Rafiza Ribeiro | 14:42 |


19.4.03

Inspiração


Ilustração de Eric Feng

Post descaradamente inspirado neste outro aqui, publicado no blog da Rosana.

Rafiza Ribeiro | 16:34 |


Uma arte

A arte de perder não tarda aprender;
tantas coisas parecem feitas com o molde
da perda que o perdê-las não traz desastre.

Perca algo a cada dia. Aceita o susto
de perder chaves, e a hora passada embalde.
A arte de perder não tarda aprender.

Pratica perder mais rápido mil coisas mais:
lugares, nomes, onde pensaste de férias
ir. Nenhuma perda trará desastre.

Perdi o relógio de minha mãe. A última,
ou a penúltima, de minhas casas queridas
foi-se. Não tarda aprender, a arte de perder.

Perdi duas cidades, eram deliciosas. E,
pior, alguns reinos que tive, dois rios, um
continente. Sinto sua falta, nenhum desastre.

- Mesmo perder-te a ti (a voz que ria, um ente amado), mentir não posso. É evidente:
a arte de perder muito não tarda aprender,
embora a perda - escreva tudo! - lembre desastre.

Elizabeth Bishop

Rafiza Ribeiro | 16:04 |


18.4.03

When I dance je t'aime encore*


*Trecho da música Je t'aime encore (Eu ainda te amo), de Jean-Jacques Goldman, cantada por Celine Dion.



"Eu ainda te amo" e "I still love you" sempre foram duas frases que gostei muito. Em português pelo significado, a continuidade do amor, apesar dos altos e baixos. Em inglês pela sonoridade + significado. Seguindo minha velha filosofia lulusantiana de que "as canções mais tolas, tendo seus defeitos, sabem diagnosticar o que vai no peito", me apaixonei de cara por Je t'aime encore, que, por sua vez, lembra um velho filme dos anos 70, com uma mulher de lenço na cabeça, calça jeans e um velho Chevy na garagem.
O que mais me encantou na música foi a passagem que diz: "But When I dance je t'aime encore" - "Mas, mesmo quando eu danço, eu ainda te amo".
Falando a verdade, quantas vezes isso já conteceu com você? Quantas vezes procurou fingir que estava tudo bem, mas o amor ainda doía?
Bendita seja a música brega.



Fotografia: Hulton Archive, com montagem minha.

Rafiza Ribeiro | 17:58 |


A maior dor do vento é não ser colorido

Do Quintana, de novo.

Rafiza Ribeiro | 17:09 |


Canção do dia de sempre

Para Norah Lawson


Tão bom viver dia a dia...
A vida, assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como essas nuvens do céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

Mario Quintana

Rafiza Ribeiro | 17:06 |


17.4.03

!!!

Wallpapers atualizados...

Rafiza Ribeiro | 10:02 |







O vestido

No armário do meu quarto escondo de tempo e traça meu vestido estampado em fundo preto.
É de seda macia desenhada em campânulas vermelhas à ponta de longas hastes delicadas.
Eu o quis com paixão e o vesti como um rito, meu vestido de amante.
Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido.
É só tocá-lo, volatiza-se a memória guardada:
eu estou no cinema e deixo que segurem minha mão.
De tempo e traça meu vestido me guarda.

Adélia Prado


Rafiza Ribeiro | 08:41 |


15.4.03

Com que terá sonhado o Tempo até agora?

Sonhado com a espada, cujo melhor lugar é o verso...
Sonhado com os gregos que descobriram o diálogo e a dúvida...
Sonhado com a felicidade que tivemos ou que sonhamos ter tido...
Sonhado com ética e com as metáforas do mais estranho dos homens, o que morreu numa tarde, em uma cruz...
Sonhado com o livro, esse espelho que sempre nos revela outra cara...

Sonhado com o número da arena...
Sonhado com o jasmim que não pode
saber que com ele sonham...
Sonhado com os passos do labirinto...
Sonhado com o nome secreto de Roma,
que era sua verdadeira muralha...
Sonhado com a vida dos espelhos...
Sonhado com mapas que Ulisses não teria compreendido...
Sonhado com o mar e com a lágrima.
Sonhado com o cistal.
Sonhado que Alguém com ele sonha.

Jorge Luis Borges

Rafiza Ribeiro | 19:18 |


14.4.03

Constatação

Algum dia vós sereis velhos o suficiente para começar a ler outra vez contos de fadas.

C. S. Lewis

Rafiza Ribeiro | 11:24 |


Crescer

São mínimas coisas entrançando a vida:
o passo no corredor, a mão que acalma,
o corpo que arde e a apazigua. O sono, O sonho.
Silêncios. Solidões.
O filho que se faz e vê, com certo espanto,
assumir identidade própria.
O carro. A casa.
A árvore plantada a quatro mãos, e um dia seus ramos brincam no telhado.

Lya Luft

Rafiza Ribeiro | 11:18 |


13.4.03

A Vinha Vermelha




Clique nas figuras acima para ver A Vinha Vermelha, a tela de Van Gogh mencionada no post abaixo.

Rafiza Ribeiro | 23:18 |


Carta

Meu caro Vincent:
Finalmente! Uma de suas telas foi comprada por quatrocentos francos! Foi a "Vinha vermelha", que você fez em Arles, na primavera passada. Foi comprada por Anna Bock, irmã do pintor.
Parabéns, meu velho! Brevemente sua obra estará sendo vendida em toda a Europa! Utilize esse dinheiro para voltar a Paris, se o doutor Peyton concordar.
Encontrei há pouco um homem encantador, o doutor Gachet, que tem uma casa em Auvers-sur-l'Oise, a uma hora apenas de Paris. Todos os pintores de valor, desde Daubigny, têm trabalhado em sua casa. Ele diz que compreende seu caso claramente e que, a qualquer tempo,, se você resolver vir para Auvers, tomará conta de você.
Escreverei outra vez amanhã.

Théo

Trecho de A vida trágica de Van Gogh, de Irving Stone

Rafiza Ribeiro | 22:40 |


Carandiru

Cartaz personalizado avisa que um dos detentos da cela está recebendo uma vista íntima


Isso aqui ô ô
G#m7 F#m7 B7
É um pouquinho de Brasil iá iá
F#m7 B7 E
Desse Brasil que canta e é feliz, feliz, feliz
Bm7 E7 A Am
É também um pouco de uma raça
D7 E G#m7
Que não tem medo de fumaca ai ai
F3m7 B7 E
E não se entrega não

(Ary Barroso)

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"Só podem contar o que aconteceu a polícia, os presos e Deus. Eu ouvi apenas os presos." (Drauzio Varella)



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Carandiru, o filme do Babenco, é um soco no estômago. Um soco que vale a pena.

Rafiza Ribeiro | 01:09 |


11.4.03

Familiar to millions (Plagiando Oasis)

Ando cansada.
Mas cansada no bom sentido, daquele tipo em que vc chega em casa no fim da tarde
moída e não tem tempo de pensar em nada. Cansaço que faz as coisas mais simples
se tornarem as mais prazerosas, afinal de contas, nada como chegar em casa tirar
os sapatos e mexer os dedinhos. A UnB tá acabando comigo, muita coisa pra fazer,
muita coisa pra pensar e pouco tempo pra problemas pessoais. Alias, tô começando
a me apegar aquele lugar, de verdade, as vezes até rola uma certa preguicinha de
se locomover até em casa. Por mim alugava uma kit ali, bem pertinho e morava por
lá (quem sabe ainda não coloco em prática o meu projeto da barraca no jardim de
inverno do ICC). Lugar grande, pessoas diferentes, clima diferente. Alias,
pensando assim tenho até medo de que cheguem meus fins de semana brócolis de
tédio, depressão e ócio. Quero festas nos CAs, cervejadas no posto de gasolina,
sonecas na biblioteca, aventuras pelo campus e quero até ensopadinho no bandejão
(é, quem diria tô até começando a gostar da comida daquele lugar, juro).

Do Clarisbella's Recipes, que tem um layout muito legal.

Rafiza Ribeiro | 10:03 |


10.4.03

O desparecido

Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim.

Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me no espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão.

Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma distante esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.



Rubem Braga

Rafiza Ribeiro | 12:51 |


9.4.03

Você conhece esta imagem?













Com certeza você já deve ter visto esta imagem várias vezes, circulando em e-mails e sites na Internet. Talvez o que você não saiba é que o surpreendente iceberg é, na verdade, um trabalho digital, que funde num só dois icebergs distintos. A parte de cima foi fotografada na Antártida, e a de baixo, no Alasca. A obra é do professor de fotografia Ralph Clevenger, que já publicou diversos trabalhos na National Geographic. Para saber mais, clique aqui.


Rafiza Ribeiro | 13:08 |


Silêncio (Título meu)

Silêncio, estou escrevendo
e não sei se destas palavras
sairá como mágica um poema
uma reportagem ou um recado
não sei em que se transformará
este grupo de sujeitos e advérbios
que buscam aqui reunidos
decifrar todos os meus medos
silêncio, estou me escutando
e quem fala são meus dedos

Martha Medeiros

Rafiza Ribeiro | 12:55 |


Por e-mail





Recebi hoje, de um aluno, pelo correio eletrônico. Bom presente para quem chegou em casa cansada...

Rafiza Ribeiro | 11:54 |


8.4.03

Revival

Por não estarem distraídos

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.



Clarice Lispector
(Texto publicado no antigo Poiesis do Weblogger)

Rafiza Ribeiro | 16:52 |


!!!


Fotografia: Getty Images

Rafiza Ribeiro | 09:15 |


7.4.03

Sete de abril, dia do Jornalista

Comecei a trabalhar muito nova na profissão, me afastei por conta do mestrado e hoje ensino aqueles que serão meus colegas no futuro. Sinto falta das redações, dos cafés e uma rodinha, da constante lapidação dos textos (meu e dos outros ;O)), de ir para a rua... Por coincidência, comprei hoje o livro do Ricardo Noblat e achei isso aqui lá dentro:

"Pois o jornalismo é uma paixão insaciável que só se pode digerir e torná-lo humano por sua confrontação descarnada com a realidade. Ninguém que não o tenha sofrido pode imaginar essa servidão que se alimenta dos imprevistos da vida. Ninguém que não o tenha vivido pode conceber, sequer, o que é essa palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo das primícias, a demolição moral do fracasso. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderá persistir num ofício tão incompreensível e voraz, cuja obra se acaba depois de cada notícia, como se fora para sempre, mas que não permite um instante de paz enquanto não se recomeça com mais ardor do que nunca no minuto seguinte"

Sabe de quem? Do Gabriel García Márquez

Ê saudade!!

Rafiza Ribeiro | 23:48 |


1.4.03

Sementes de trigo espargidas ao vento
Saber para quem encontrar





Norbert Elias

Rafiza Ribeiro | 17:35 |