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31.3.03 Máxima do dia Perdoa a teus inimigos: nada os chateia tanto! Oscar Wilde 25.3.03 Black Tie
Herbarium (trecho) Numa alegria desatinada fui colhendo as folhas, mordi goiabas verdes, atirei pedras nas árvores, espantando os passarinhos que cochichavam seus sonhos, me machucando de contente entre a galharia. Corri até o córrego. Alcancei uma borboleta e prendendo-a pelas pontas das asas deixei-a na corola de uma flor. Te solto no meio do mel, gritei-lhe. O que vou receber em troca? Lygia Fagundes Telles 24.3.03 Poesia - íris das bolhas de sabão. José Oiticica 23.3.03 Alice
21.3.03 Copy & Paste atrasado A guerra começa. O presidente norte-americano George W. Bush -sem representar a unanimidade da opinião pública de seu país- oferta, com seu radicalismo, um período de incertezas e privações para todos os países do mundo. Se os ataques do radicalismo islâmico destruíram as torres do World Trade Center, o radicalismo anglo-saxão, iniciado nesta quarta-feira, vai destruir, simbolicamente, na mesma Nova York, a torre do edifício das Nações Unidas. A queda de Saddam Hussein pela violência suprema vale a destruição da ONU? Vale o desprezo pela Europa Continental e pela China? Vale ignorar arrogantemente os apelos da consciência universal? Quando cessarem os raides dos B-52 e B2 sobre Bagdá, estaremos vivendo em um mundo mais seguro? Que democracia é essa que um outro fanatismo pretende ensinar aos iraquianos? Saddam Hussein é um criminoso. Contra ele formava-se um cordão de isolamento. Lideranças acreditavam em saída indolor para a crise iraquiana. Mas, agora, o mundo está mergulhando em uma aventura bélica inglória e sem chance de se haver vencedores. Já estamos todos perdendo, mas os maiores perdedores serão os próprios Estados Unidos. Perdedores por prorrogar internamente a paranóia de atentados, perdedores por criar um amplo ressentimento mundial, perdedores por eventuais respostas européias e chinesas, e perdedores por quebrar a frágil aliança das Nações Unidas -um dos últimos refúgios da pequena esperança que restava em um mundo melhor, um mundo melhor inclusive para os americanos. Matinas Suzuki Jr Outra estação
... Não se conquistará o respeito pelos mesmos métodos de se obter o poder. O respeito não requer chefes, mas mediadores, árbitros, encorajadores e conselheiros, ou o que as sagas irlandesas chamam tecedores de paz, que não proclamam ter a cura para todos os males, e cuja ambição está limitada a ajudar pessoas a se apreciarem entre si e a trabalhar juntas, ainda que não estejam em completo acordo. Theodore Zeldin 19.3.03 Nota Escrevi o texto abaixo há alguns dias atrás quando vi O pianista, do Polanski. Foi escrito ainda sob o impacto de pensamentos angustiados, movimentados especialmente pela personagem de Adrien Brody. Escrevi, mas não publiquei. Achei amargo, pouco otimista, desiludido. Enfim, tudo o que eu não gosto (nem gostaria) de ser. Mas foi um pensamento genuíno, espontâneo, apesar de um tanto quanto simplório. Hoje, o dia em que expira o prazo dado pelos EUA ao Iraque, achei que deveria publicar. Há um velho ditado chinês que diz: "se você quer consertar o mundo, dê primeiro três voltas em sua casa". É essa a frase que me vem em mente quando releio o texto, escrito no dia 10 de março. Eis ele: Fui assistir ao Pianista neste final de semana... Mas não é bem sobre o filme que quero falar. É sobre o gostinho de humanidade que fico toda vez que leio ou assisto a algo sobre a guerra (a 2º em especial). O que me pergunto sempre é: até que ponto Adolf Hitler e sua Alemanha não são hiperbolizações de nós mesmos. Por que? Porque a cada dia que passa, vejo que continuamos os mesmos. Para nós (a dita humanidade) não basta odiar, temos também que agredir. Não basta não gostar, temos que humilhar. Não basta não amar, temos que desrespeitar. Não basta ser indiferente, temos que discriminar. Sei que tudo isso é muito chato de se falar, mas é o que eu vejo todos os dias, em maior ou menor grau. Às vezes penso que somos todos (ou quase todos) nazistas (em amior ou menor grau também). E isso me dá uma profunda sensação de decepção. 17.3.03 No CD Player O que estou ouvindo agora? Ela! Come away with me... 14.3.03 Stop calling me!
Mulheres Apaixonadas I Ou então, meu Deus!, ele é um dos autores de Júlia, Sabrina e companhia! Mulheres Apaixonadas Reparem: Manoel Carlos é assíduo leitor de Júlia, Sabrina e outros folhetins do gênero. Só pode. É a única explicação... Fada Madrinha
Monólogo de uma geração emudecida Estar aberto, sem barreiras, para os outros e ficar emudecido parecem se excluir mutuamente. Mas só parecem. Pois o emudecimento não aparece (este é o caso mais comum) apenas quando o abismo entre pessoa e pessoa torna-se tão amplo ou perigoso que não se consegue superá-lo. Ele ocorre também quando o abismo é muito estreito, para tornar possível uma mediação lingüística. G. Anders 9.3.03 Volta às aulas 5.3.03 Canto CXX Tentei escrever o PARAÍSO Não se mova Deixe falar o vento esse é o paraíso. Deixe os Deuses perdoarem o que eu fiz Deixe aqueles que eu amo tentarem perdoar o que eu fiz. Ezra Pound 4.3.03 Reenergizando Fotografia: Getty Images. tentação Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva. Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto de bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço, a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher ? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos. Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina, acompanhando uma senhora, e encarnado na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo. Lá vinha ele trotando, à frente de sua dona, arrastando seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro. A menina abriu os olhos pasmados. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam. Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava ? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo. Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos. Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se, com urgência, com encabulamento, surpreendidos. No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes de Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam. Mas ambos eram comprometidos. Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada. A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreendiam. Acompanhou-os com os olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina. Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás. Clarice Lispector 1.3.03 Sonho de um caranaval Carnaval, desengano Deixei a dor em casa me esperando E brinquei e gritei e fui vestido de rei Quarta-feira sempre desce o pano Carnaval, desengano Essa morena me deixou sonhando Mão na mão, pé no chão E hoje nem lembra não Quarta-feira sempre desce o pano Era uma canção, um só cordão E uma vontade De tomar a mão De cada irmão pela cidade No carnaval, esperança Que gente longe viva na lembrança Que gente triste possa entrar na dança Que gente grande saiba ser criança Chico Buarque
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