|
|
||||
|
||||
|
30.1.03 No Pão de Açúcar de cada dia dai-nos Senhor a poesia de cada dia Oswald de Andrade 28.1.03 In memorian
Certidão de nascimento de Cícero Dias (+ 28.01.2003). Conheça mais sobre o pintor modernista aqui. Sobre cultura Para mim, sinceramente, a cultura não pode ser dissociada do mundo no qual vive. Acho que tem de ter um comprometimento. Não estou dizendo um comprometimento militante, mas tem que servir para informar, para integrar. Acho que essa idéia que foi difundida aqui no Brasil de uma cultura puramente elitista tem que mudar. A referência teria que passar do "crítico de arte" para a "maioria da população". Inclusive essa idéia de que os museus pertencem a uma superestrutura, à classe dominante, e que só se discute em meios sociais muito sofisticados, acho isso um erro profundo. Tínhamos que difundir essa idéia da cultura para a maioria. O que são os museus? São nossas referências, referências da nossa história, do passado de todos nós. Os bens materiais acabam, as carruagens acabaram, os automóveis acabarão, os bens de consumos cotidianos desaparecerão. O que fica? Um pouco de literatura, de pintura, de música, isso é que é a nossa história, que é a história da humanidade, a verdadeira história, e de todos nós, não só de uma elite dominante. De Sebastião Salgado, fotógrafo e economista, na Fórum deste mês. 27.1.03 De cabeça pra baixo Fotografia: Getty Images Paixão De vez em quando Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo. O mundo, cheio de departamentos, não é bola bonita caminhando solta no espaço. Eu fico feia, olhando espelhos com provocação, batendo a escova com força nos cabelos, sujeita à crença em presságios. Viro péssima cristã. Adélia Prado, no livro O coração Disparado II poema órfico O passar do silêncio é o caminho para a VOZ O passar da palavra é o caminho para o NADA Nauro Machado 26.1.03 De perna pro ar Fotografia: Getty Images Classificados poéticos (Trecho) Perdi maleta cheia de nuvens e de flores maleta onde eu carregava todos os meus amores embrulhados em neblina. Perdi essa maleta em alguma esquina de algum sonho e desde então eu ando tristonho sem saber onde pôr as mãos. Se andando pelas ruas você encontrar a tal maleta por favor me avise em pensamento que eu largo tudo e venho correndo... Roseana Murray 23.1.03 Como comecei a escrever Aí por volta de 1910 não havia rádio nem televisão, e o cinema chegava ao interior do Brasil uma vez por semana aos domingos. As notícias do mundo vinham pelo jornal, três dias depois de publicadas no Rio de Janeiro. Se chovia a potes, a mala do correio aparecia ensopada, uns sete dias mais tarde. Não dava para ler o papel transformado em mingau. Papai era assinante da Gazeta de Notícias, e antes de aprender a ler eu me sentia fascinado pelas gravuras coloridas do suplemento de domingo. Tentava decifrar o mistério das letras em redor das figuras, e mamãe me ajudava nisso. Quando fui para a escola pública, já tinha a noção vaga de um universo de palavras que era preciso conquistar. Durante o curso, minhas professoras costumavam passar exercícios de redação. Cada um de nós tinha de escrever uma carta, narrar um passeio, coisas assim. Criei gosto por esse dever, que me permitia aplicar para determinado fim o conhecimento que ia adquirindo do poder de expressão contido nos sinais reunidos em palavras. Daí por diante as experiências foram-se acumulando, sem que eu percebesse que estava descobrindo a leitura. Alguns elogios da professora me animavam a continuar. Ninguém falava em conto ou poesia, mas a semente dessas coisas estava germinando. Meu irmão, estudante na Capital, mandava-me revistas e livros,e me habituei a viver entre eles. Depois, já rapaz, tive a sorte de conhecer outros rapazes que também gostavam de ler e escrever. Então começou uma fase muito boa de troca de experiências e impressões. Na mesa do café - sentado (pois tomava-se café sentado nos bares, e podia-se conversar horas e horas sem incomodar nem ser incomodado) eu tirava do bolso o que escrevera durante o dia, e meus colegas criticavam. Eles também sacavam seus escritos, e eu tomava parte nos comentários. Tudo com naturalidade e franqueza. Aprendi muito com os amigos, e tenho pena dos jovens de hoje que não desfrutam desse tipo de amizade crítica. Carlos Drummond de Andrade 22.1.03 Inocência Cristo não tem mãos: Cristo está nos pássaros. Cristo não tem olhos: Cristo está nas flores. Nauro Machado 19.1.03 Nem aí
Fotografia de Dorit Lambroso 17.1.03 Bumba-meu-poeta (Trecho) A FAMÍLIA DO POETA: Salve, salve, meu poeta. Você hoje anunciou que vai dar uma função na praia do Acaba-mundo. Juntou-se a família toda para visitar você, trouxemos alguns vizinhos para engrossar a função. O POETA: Se sentem sem cerimônia, sejam benvindos, merci Os mais malucos na frente - não têm medo de aplaudir -, os ajuizados no fundo. (...) O JORNALISTA: "Seu" poeta, será possível se gozar umas casquinhas de tão celebrada festa? O POETA: Faça o favor de chegar, você é persona grata. Talvez uns trinta por cento do que o poeta imagina foi você que o forneceu. Você traz algum suicídio, caso de amor cabeludo, revolução fracassada, desastre na lua, o quê? O JORNALISTA: Tudo isso o que o senhor disse mais o resto que pensou. De Murilo Mendes 13.1.03 Presente Estive quase toda a manhã pensando em como as coisas importantes que nos acontecem dependem apenas de um derradeiro segundo, nem mais nem menos. É como se a vida inteira fosse se acumulando naquele exíguo espaço de existência temporal, equilibrando-se perigosamente às margens de um precipício, à espera de uma atitude corajosa ou de um elemento desencadeador, para então resolver-se inteira. Ela, a vida, anseia pelo nosso momento de descuido para acontecer simplesmente, sem as amarras e os cuidados com que a mantemos em permanente vigilância. Seja sob as bençãos daquele Deus que, mesmo quando não invocado, está sempre ao serviço dos loucos, dos apaixonados e das crianças. Ou sob as asas negras do anjo dos arrependimentos. E no meio da vida, no meio do salto, da fuga ou da corrida desenfreada, de um lado e do outro do precipício, estamos nós, a quem raramente é permitido saber com antecipação o quê ou quem nos rege. Se o nosso próximo instante será fruto de agir ou de sofrer uma ação: a vida é sempre um passo certo ou um golpe do destino, quase não há meio termo.
Dela (o livro) e dela (o presente). Sorôco, sua mãe, sua filha Aquele carro parara na linha de resguardo, desde a véspera, tinha vindo com o expresso do Rio, e estava lá, no desvio de dentro, na esplanada da estação. Não era um vagão comum de passageiros, de primeira, só que mais vistoso, todo novo. A gente reparando, notava as diferenças. Assim repartido em dois, num dos cômodos as janelas sendo de grades, feito as de cadeia, para os presos. A gente sabia que, com pouco, ele ia rodar de volta, atrelado ao expresso daí de baixo, fazendo parte da composição. Ia servir para levar duas mulheres, para longe, para sempre. O trem do sertão passava às 12h45m. As muitas pessoas já estavam de ajuntamento, em beira do carro, para esperar. As pessoas não queriam poder ficar se entristecendo, conversavam, cada um porfiando no falar com sensatez, como sabendo mais do que os outros a prática do acontecer das coisas. Sempre chegava mais povo - o movimento. Aquilo quase no fim da esplanada, do lado do curral de embarque de bois, antes da guarita do guarda-chaves, perto dos empilhados de lenha. Sorôco ia trazer as duas, conforme. A mãe de Sorôco era de idade, com para mais de uns setenta. A filha, ele só tinha aquela. Sorôco era viúvo. Afora essas, não conhecia dele o parente nenhum. (...) A filha - a moça - tinha pegado a cantar, levantando os braços, a cantiga não vigorava certa, nem no tom nem no se-dizer das palavras - o nenhum. A moça punha os olhos no alto, que nem os santos e os espantados, vinha enfeitada de disparares, num aspecto de admiração. Assim com panos e papéis, de diversas cores, uma carapuça em cima dos espalhados cabelos, e enfunada em tantas roupas ainda de mais misturas, tiras e faixas, dependuradas - virundangas: matéria de maluco. A velha só estava de preto, com o fichu preto, ela batia com a cabeça, nos docementes. Sem tanto que diferentes, elas se assemelhava. Sorôco estava dando o braço a elas, uma de cada lado. Em mentira, parecia entrada em igreja, num casório. Era uma tristeza. Parecia enterro. Todos ficavam de parte, a chusma de gente não querendo afirmar as vistas, por causa daqueles transmodos e despropósitos, de fazer risos, e por conta de Sorôco - para não parecer pouco caso. Ele hoje estava calçado de botinas, e de paletó, com chapéu grande, botara sua roupa melhor, os maltrapos. E estava reportado e atalhado, humildoso. Todos diziam a ele seus respeitos, de dó. Ele respondia: - "Deus vos pague essa despesa..." O que os outros se diziam: que Sorôco tinha tido muita paciência. Sendo que não ia sentir falta dessas transtornadas pobrezinhas, era até um alívio. Isso não tinha cura, elas não iam voltar, nunca mais. De antes, Sorôco agüentava de repassar tantas desgraças, de morar com a s duas, pelejava. Daí, com os anos, elas pioravam, ele não dava mais conta, teve de chamar ajuda, que foi preciso. Tiveram que olhar em socorro dele, determinar de dar as providências de mercê. Quem pagava tudo era o Governo, que tinha mandado o carro. Por forma que, por força disso, agora iam remir com as duas, em hospícios. O se seguir. De repente a velha se desapareceu do braço de Sorôco, foi se sentar no degrau da escadinha do carro. - "Ela não faz nada, seo Agente..."- a voz de Sorôco estava muito branda: - "Ela não acode, quando a gente chama..."A moça, aí, tornou a cantar, virada para o povo, o ao ar, a cara dela era um repouso estatelado, não queria dar-se em espetáculo, mas representava de outroras grandezas, impossíveis. Mas a gente viu a velha olhar para ela, com um encanto de pressentimento muito antigo - um amor extremoso. E, principiando baixinho, mas depois puxando pela voz, ela pegou a cantar, também, tomando o exemplo, a cantiga mesma da outra, que ninguém não entendia. Agora elas cantavam junto, Não paravam de cantar. (...) Agora, mesmo, a gente só escutava era o acorçôo do canto, das duas, aquela chirimia, que evocava: que era um constado de enormes diversidades desta vida, que podiam doer na gente, sem jurisprudência de motivo nem lugar, nenhum, mas pelo antes, pelo depois. Sorôco. Tomara aquilo se acabasse. O trem chegando, a máquina manobrando sozinha para vir pegar o carro. O trem apitou, e passou, se foi, o de sempre. Sorôco não esperou tudo se sumir. Nem olhou. Só ficou de chapéu na mão, mais de barba quadrada, surdo - o que nele mais espantava. O triste do homem, lá, decretado, embargando-se de poder falar algumas suas palavras. Ao sofrer o assim das coisas, ele, no oco sem beiras, debaixo do peso, sem queixa, exemploso. E lhe falaram: - "O mundo está dessa forma..." Todos, no arregalado respeito, tinham as vistas neblinadas. De repente, todos gostavam demais de Sorôco. Ele se sacudiu, de um jeito arrebentado, desacontecido, e virou, pra ir-s'embora. Estava voltando para casa, como se estivesse indo longe, fora de conta. Mas, parou. Em tanto que se esquisitou, parecia que ia perder o de si, para de ser. Assim num excesso de espírito, fora de sentido. E foi o que Não se podia prevenir: quem ia fazer siso naquilo? Num rompido - ele começou a cantar, alteado, forte, mas sozinho para si - e era a cantiga, mesma, de desatinho, que as duas tanto tinham cantado. Cantava continuando. A gente se esfriou, se afundou - um instantâneo. A gente... E foi sem combinação, nem ninguém entendia o que se fizesse: todos, de uma vez, de dó do Sorôco, principiaram também a acompanhar aquele canto sem razão. E com as vozes tão altas! Todos caminhando, com ele, Sorôco, e canta que cantando, atrás dele, os mais de detrás quase que corriam, ninguém deixasse de cantar. Foi o de não sair mais da memória. Foi um caso sem comparação. A gente estava levando agora o Sorôco para a casa dele, de verdade. A gente, com ele, ia até aonde que ia aquela cantiga. Guimarães Rosa Assim é a vida Todos esses que aí estão Atravancando o meu caminho, Eles passarão... Eu passarinho! De Mário Quintana, no Poeminha do contra 9.1.03 Perfume de joaninha Para atrair joaninhas para o seu jardim! Quer comprar? Clique aqui! Inutilidades
Ninguém coça as costas da cadeira Ninguém chupa a manga da camisa O piano jamais abana a cauda Tem asa, porém não voa, a xícara De que serve o pé da mesa se não anda? E a boca da calça se não fala nunca? Nem sempre o botão está na sua casa O dente de alho não morde coisa alguma. Ah! se tratassem os cavalos do motor... Ah! se fosse até o circo o macaco do carro.... Então a menina dos olhos comeria Até o bolo esportivo e bala de revóver. José Paulo Paes Linha de chegada Fotografia: Getty Images 7.1.03 Refletindo... De cidadezinhas e fundões, do Gazeta de Mirassol.
Cidadezinha Qualquer Casas entre bananeiras mulheres entre laranjeiras pomar amor cantar Um homem vai devagar. Um cachorro vai devagar. Um burro vai devagar. Devagar...as janelas olham. Eta vida besta, meu Deus. Carlos Drummond de Andrade Minha Terra Saí menino de minha terra. Passei trinta anos longe dela. De vez em quando me diziam: Sua terra está completamente mudada, Tem avenidas, arranha-céus... É hoje uma bonita cidade! Meu coração ficava pequenino. Revi afinal o meu Recife. Está de facto completamente mudado. Tem avenidas, aranha-céus. É hoje uma cidade bonita. Diabo leve quem pôs bonita a minha terra! Manuel Bandeira Cidadezinha Cidadezinha cheia de graça... Tão pequenina que até causa dó! Com seus burricos a pastar na praça... Sua igrejinha de uma torre só... Nuvens que venham, nuvens e asas, Não param nunca nem um segundo... E fica a torre, sobre as velhas casas, Fica cismando como é vasto o mundo!... Eu que de longe venho perdido, Sem pouso fixo (a triste sina!) Ah, quem me dera ter lá nascido! Lá toda a vida pode morar! Cidadezinha...Tão pequenina Que toda cabe num olhar só... Mário Quintana
|
||||
|