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30.1.03

Betty



Betty, filha do artista, é representada com detalhamento fotográfico. Está sentada perto da superfície do quadro, como se tratasse de um close da câmera. No entanto, não se pode dizer que este seja um retrato de Betty, pois diz muito pouco sobre ela. Richter escolheu pintar a filha de costas; seu rosto é invisível. Ele se concentrou nos padrões em vermelho, branco e cor-de-rosa do casaco e do vestido e nos cabelos presos para trás. Richter transgrediu as noções de pintura e representação, oferecendo-nos uma pintura que parece uma fotografia, um retrato que ligeiramente dá as costas às convenções.

Betty é filha e pintura de Gerhard Richter.
(Texto: excerto de O livro da arte, da Martins Fontes. Tradução de Monica Stahel.)

Rafiza Ribeiro | 18:40 |


Pequenas notas

Eu gosto dos Tribalistas. Juntos ou separados.

*

Tenho uma nova paixão: Gerhard Richter.

*
Sócrates dizia que "só sabia que nada sabia".
Ele só precisou pensar um pouco para chegar a essa conclusão.
Eu precisei de 22 anos de estudo.

Rafiza Ribeiro | 18:29 |


No Pão de Açúcar
de cada dia
dai-nos Senhor
a poesia
de cada dia

Oswald de Andrade

Rafiza Ribeiro | 09:39 |


28.1.03

In memorian







Certidão de nascimento de Cícero Dias (+ 28.01.2003).
Conheça mais sobre o pintor modernista aqui.

Rafiza Ribeiro | 23:09 |


Sobre cultura

Para mim, sinceramente, a cultura não pode ser dissociada do mundo no qual vive. Acho que tem de ter um comprometimento. Não estou dizendo um comprometimento militante, mas tem que servir para informar, para integrar. Acho que essa idéia que foi difundida aqui no Brasil de uma cultura puramente elitista tem que mudar. A referência teria que passar do "crítico de arte" para a "maioria da população". Inclusive essa idéia de que os museus pertencem a uma superestrutura, à classe dominante, e que só se discute em meios sociais muito sofisticados, acho isso um erro profundo. Tínhamos que difundir essa idéia da cultura para a maioria. O que são os museus? São nossas referências, referências da nossa história, do passado de todos nós. Os bens materiais acabam, as carruagens acabaram, os automóveis acabarão, os bens de consumos cotidianos desaparecerão. O que fica? Um pouco de literatura, de pintura, de música, isso é que é a nossa história, que é a história da humanidade, a verdadeira história, e de todos nós, não só de uma elite dominante.


De Sebastião Salgado, fotógrafo e economista, na Fórum deste mês.

Rafiza Ribeiro | 20:40 |


27.1.03

De cabeça pra baixo



Fotografia: Getty Images

Rafiza Ribeiro | 15:24 |


Paixão

De vez em quando Deus me tira a poesia.
Olho pedra, vejo pedra mesmo.
O mundo, cheio de departamentos,
não é bola bonita caminhando solta no espaço.
Eu fico feia, olhando espelhos com provocação,
batendo a escova com força nos cabelos,
sujeita à crença em presságios.
Viro péssima cristã.

Adélia Prado, no livro O coração Disparado

Rafiza Ribeiro | 15:18 |


II poema órfico

O passar
do silêncio
é o caminho
para a
VOZ

O passar
da palavra
é o caminho
para o
NADA

Nauro Machado

Rafiza Ribeiro | 14:00 |


26.1.03

De perna pro ar



Fotografia: Getty Images

Rafiza Ribeiro | 19:24 |


Classificados poéticos (Trecho)

Perdi maleta cheia de nuvens
e de flores
maleta onde eu carregava
todos os meus amores embrulhados
em neblina.
Perdi essa maleta em alguma esquina de algum sonho
e desde então eu ando tristonho
sem saber onde pôr as mãos.
Se andando pelas ruas
você encontrar a tal maleta
por favor me avise em pensamento
que eu largo tudo e venho correndo...

Roseana Murray

Rafiza Ribeiro | 19:01 |


23.1.03

Como comecei a escrever

Aí por volta de 1910 não havia rádio nem televisão, e o cinema chegava ao interior do Brasil uma vez por semana aos domingos. As notícias do mundo vinham pelo jornal, três dias depois de publicadas no Rio de Janeiro. Se chovia a potes, a mala do correio aparecia ensopada, uns sete dias mais tarde. Não dava para ler o papel transformado em mingau.

Papai era assinante da Gazeta de Notícias, e antes de aprender a ler eu me sentia fascinado pelas gravuras coloridas do suplemento de domingo. Tentava decifrar o mistério das letras em redor das figuras, e mamãe me ajudava nisso. Quando fui para a escola pública, já tinha a noção vaga de um universo de palavras que era preciso conquistar.

Durante o curso, minhas professoras costumavam passar exercícios de redação. Cada um de nós tinha de escrever uma carta, narrar um passeio, coisas assim. Criei gosto por esse dever, que me permitia aplicar para determinado fim o conhecimento que ia adquirindo do poder de expressão contido nos sinais reunidos em palavras.

Daí por diante as experiências foram-se acumulando, sem que eu percebesse que estava descobrindo a leitura. Alguns elogios da professora me animavam a continuar. Ninguém falava em conto ou poesia, mas a semente dessas coisas estava germinando. Meu irmão, estudante na Capital, mandava-me revistas e livros,e me habituei a viver entre eles. Depois, já rapaz, tive a sorte de conhecer outros rapazes que também gostavam de ler e escrever.

Então começou uma fase muito boa de troca de experiências e impressões. Na mesa do café - sentado (pois tomava-se café sentado nos bares, e podia-se conversar horas e horas sem incomodar nem ser incomodado) eu tirava do bolso o que escrevera durante o dia, e meus colegas criticavam. Eles também sacavam seus escritos, e eu tomava parte nos comentários. Tudo com naturalidade e franqueza. Aprendi muito com os amigos, e tenho pena dos jovens de hoje que não desfrutam desse tipo de amizade crítica.

Carlos Drummond de Andrade

Rafiza Ribeiro | 19:01 |


22.1.03

Inocência

Cristo não tem mãos:
Cristo está nos pássaros.

Cristo não tem olhos:
Cristo está nas flores.

Nauro Machado
ilustração de wendy wegner

Rafiza Ribeiro | 22:17 |


19.1.03

Nem aí



Fotografia de Dorit Lambroso

Rafiza Ribeiro | 21:45 |


17.1.03

Bumba-meu-poeta (Trecho)

A FAMÍLIA DO POETA:

Salve, salve, meu poeta.
Você hoje anunciou
que vai dar uma função
na praia do Acaba-mundo.
Juntou-se a família toda
para visitar você,
trouxemos alguns vizinhos
para engrossar a função.

O POETA:

Se sentem sem cerimônia,
sejam benvindos, merci
Os mais malucos na frente
- não têm medo de aplaudir -,
os ajuizados no fundo.

(...)

O JORNALISTA:

"Seu" poeta, será possível
se gozar umas casquinhas
de tão celebrada festa?

O POETA:

Faça o favor de chegar,
você é persona grata.
Talvez uns trinta por cento
do que o poeta imagina
foi você que o forneceu.
Você traz algum suicídio,
caso de amor cabeludo,
revolução fracassada,
desastre na lua, o quê?

O JORNALISTA:

Tudo isso o que o senhor disse
mais o resto que pensou.

De Murilo Mendes

Rafiza Ribeiro | 11:10 |


13.1.03

Presente

Estive quase toda a manhã pensando em como as coisas importantes que nos acontecem dependem apenas de um derradeiro segundo, nem mais nem menos. É como se a vida inteira fosse se acumulando naquele exíguo espaço de existência temporal, equilibrando-se perigosamente às margens de um precipício, à espera de uma atitude corajosa ou de um elemento desencadeador, para então resolver-se inteira. Ela, a vida, anseia pelo nosso momento de descuido para acontecer simplesmente, sem as amarras e os cuidados com que a mantemos em permanente vigilância. Seja sob as bençãos daquele Deus que, mesmo quando não invocado, está sempre ao serviço dos loucos, dos apaixonados e das crianças. Ou sob as asas negras do anjo dos arrependimentos. E no meio da vida, no meio do salto, da fuga ou da corrida desenfreada, de um lado e do outro do precipício, estamos nós, a quem raramente é permitido saber com antecipação o quê ou quem nos rege. Se o nosso próximo instante será fruto de agir ou de sofrer uma ação: a vida é sempre um passo certo ou um golpe do destino, quase não há meio termo.



Dela (o livro) e dela (o presente).

Rafiza Ribeiro | 11:40 |


Sorôco, sua mãe, sua filha

Aquele carro parara na linha de resguardo, desde a véspera, tinha vindo com o expresso do Rio, e estava lá, no desvio de dentro, na esplanada da estação. Não era um vagão comum de passageiros, de primeira, só que mais vistoso, todo novo. A gente reparando, notava as diferenças. Assim repartido em dois, num dos cômodos as janelas sendo de grades, feito as de cadeia, para os presos. A gente sabia que, com pouco, ele ia rodar de volta, atrelado ao expresso daí de baixo, fazendo parte da composição. Ia servir para levar duas mulheres, para longe, para sempre. O trem do sertão passava às 12h45m.

As muitas pessoas já estavam de ajuntamento, em beira do carro, para esperar. As pessoas não queriam poder ficar se entristecendo, conversavam, cada um porfiando no falar com sensatez, como sabendo mais do que os outros a prática do acontecer das coisas. Sempre chegava mais povo - o movimento. Aquilo quase no fim da esplanada, do lado do curral de embarque de bois, antes da guarita do guarda-chaves, perto dos empilhados de lenha. Sorôco ia trazer as duas, conforme. A mãe de Sorôco era de idade, com para mais de uns setenta. A filha, ele só tinha aquela. Sorôco era viúvo. Afora essas, não conhecia dele o parente nenhum.

(...)

A filha - a moça - tinha pegado a cantar, levantando os braços, a cantiga não vigorava certa, nem no tom nem no se-dizer das palavras - o nenhum. A moça punha os olhos no alto, que nem os santos e os espantados, vinha enfeitada de disparares, num aspecto de admiração. Assim com panos e papéis, de diversas cores, uma carapuça em cima dos espalhados cabelos, e enfunada em tantas roupas ainda de mais misturas, tiras e faixas, dependuradas - virundangas: matéria de maluco. A velha só estava de preto, com o fichu preto, ela batia com a cabeça, nos docementes. Sem tanto que diferentes, elas se assemelhava.

Sorôco estava dando o braço a elas, uma de cada lado. Em mentira, parecia entrada em igreja, num casório. Era uma tristeza. Parecia enterro. Todos ficavam de parte, a chusma de gente não querendo afirmar as vistas, por causa daqueles transmodos e despropósitos, de fazer risos, e por conta de Sorôco - para não parecer pouco caso. Ele hoje estava calçado de botinas, e de paletó, com chapéu grande, botara sua roupa melhor, os maltrapos. E estava reportado e atalhado, humildoso. Todos diziam a ele seus respeitos, de dó. Ele respondia: - "Deus vos pague essa despesa..."

O que os outros se diziam: que Sorôco tinha tido muita paciência. Sendo que não ia sentir falta dessas transtornadas pobrezinhas, era até um alívio. Isso não tinha cura, elas não iam voltar, nunca mais. De antes, Sorôco agüentava de repassar tantas desgraças, de morar com a s duas, pelejava.

Daí, com os anos, elas pioravam, ele não dava mais conta, teve de chamar ajuda, que foi preciso. Tiveram que olhar em socorro dele, determinar de dar as providências de mercê. Quem pagava tudo era o Governo, que tinha mandado o carro. Por forma que, por força disso, agora iam remir com as duas, em hospícios. O se seguir.

De repente a velha se desapareceu do braço de Sorôco, foi se sentar no degrau da escadinha do carro. - "Ela não faz nada, seo Agente..."- a voz de Sorôco estava muito branda: - "Ela não acode, quando a gente chama..."A moça, aí, tornou a cantar, virada para o povo, o ao ar, a cara dela era um repouso estatelado, não queria dar-se em espetáculo, mas representava de outroras grandezas, impossíveis. Mas a gente viu a velha olhar para ela, com um encanto de pressentimento muito antigo - um amor extremoso. E, principiando baixinho, mas depois puxando pela voz, ela pegou a cantar, também, tomando o exemplo, a cantiga mesma da outra, que ninguém não entendia. Agora elas cantavam junto, Não paravam de cantar.

(...)

Agora, mesmo, a gente só escutava era o acorçôo do canto, das duas, aquela chirimia, que evocava: que era um constado de enormes diversidades desta vida, que podiam doer na gente, sem jurisprudência de motivo nem lugar, nenhum, mas pelo antes, pelo depois.

Sorôco.

Tomara aquilo se acabasse. O trem chegando, a máquina manobrando sozinha para vir pegar o carro. O trem apitou, e passou, se foi, o de sempre.

Sorôco não esperou tudo se sumir. Nem olhou. Só ficou de chapéu na mão, mais de barba quadrada, surdo - o que nele mais espantava. O triste do homem, lá, decretado, embargando-se de poder falar algumas suas palavras. Ao sofrer o assim das coisas, ele, no oco sem beiras, debaixo do peso, sem queixa, exemploso. E lhe falaram: - "O mundo está dessa forma..." Todos, no arregalado respeito, tinham as vistas neblinadas. De repente, todos gostavam demais de Sorôco.

Ele se sacudiu, de um jeito arrebentado, desacontecido, e virou, pra ir-s'embora. Estava voltando para casa, como se estivesse indo longe, fora de conta.

Mas, parou. Em tanto que se esquisitou, parecia que ia perder o de si, para de ser. Assim num excesso de espírito, fora de sentido. E foi o que Não se podia prevenir: quem ia fazer siso naquilo? Num rompido - ele começou a cantar, alteado, forte, mas sozinho para si - e era a cantiga, mesma, de desatinho, que as duas tanto tinham cantado. Cantava continuando.

A gente se esfriou, se afundou - um instantâneo. A gente... E foi sem combinação, nem ninguém entendia o que se fizesse: todos, de uma vez, de dó do Sorôco, principiaram também a acompanhar aquele canto sem razão. E com as vozes tão altas! Todos caminhando, com ele, Sorôco, e canta que cantando, atrás dele, os mais de detrás quase que corriam, ninguém deixasse de cantar. Foi o de não sair mais da memória. Foi um caso sem comparação.

A gente estava levando agora o Sorôco para a casa dele, de verdade. A gente, com ele, ia até aonde que ia aquela cantiga.

Guimarães Rosa

Rafiza Ribeiro | 11:32 |


Assim é a vida

Todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!

De Mário Quintana, no Poeminha do contra

Rafiza Ribeiro | 11:26 |


9.1.03

Perfume de joaninha



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Rafiza Ribeiro | 22:29 |


Inutilidades

Ninguém coça as costas da cadeira
Ninguém chupa a manga da camisa
O piano jamais abana a cauda
Tem asa, porém não voa, a xícara

De que serve o pé da mesa se não anda?
E a boca da calça se não fala nunca?
Nem sempre o botão está na sua casa
O dente de alho não morde coisa alguma.

Ah! se tratassem os cavalos do motor...
Ah! se fosse até o circo o macaco do carro....
Então a menina dos olhos comeria
Até o bolo esportivo e bala de revóver.

José Paulo Paes

Rafiza Ribeiro | 20:36 |


Linha de chegada


Fotografia: Getty Images

Rafiza Ribeiro | 07:52 |


7.1.03

Refletindo...

De cidadezinhas e fundões, do Gazeta de Mirassol.

Rafiza Ribeiro | 09:24 |




Cidadezinha Qualquer

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.

Devagar...as janelas olham.
Eta vida besta, meu Deus.

Carlos Drummond de Andrade

Minha Terra

Saí menino de minha terra.
Passei trinta anos longe dela.
De vez em quando me diziam:
Sua terra está completamente mudada,
Tem avenidas, arranha-céus...
É hoje uma bonita cidade!

Meu coração ficava pequenino.

Revi afinal o meu Recife.
Está de facto completamente mudado.
Tem avenidas, aranha-céus.
É hoje uma cidade bonita.

Diabo leve quem pôs bonita a minha terra!

Manuel Bandeira

Cidadezinha

Cidadezinha cheia de graça...
Tão pequenina que até causa dó!
Com seus burricos a pastar na praça...
Sua igrejinha de uma torre só...

Nuvens que venham, nuvens e asas,
Não param nunca nem um segundo...
E fica a torre, sobre as velhas casas,
Fica cismando como é vasto o mundo!...

Eu que de longe venho perdido,
Sem pouso fixo (a triste sina!)
Ah, quem me dera ter lá nascido!

Lá toda a vida pode morar!
Cidadezinha...Tão pequenina
Que toda cabe num olhar só...

Mário Quintana

Rafiza Ribeiro | 09:24 |