|
|
||||
|
||||
|
26.12.02 14.12.02
Até o fim Quando nasci veio um anjo safado O chato dum querubim E decretou que eu tava predestinado A ser errado assim Já de saída a minha estrada entortou Mas vou até o fim Inda garoto deixei de ir à escola Cassaram meu boletim Não sou ladrão, eu não sou bom de bola Nem posso ouvir clarim Um bom futuro é o que jamais me esperou Mas vou até o fim Eu bem que tenho ensaiado um progresso Virei cantor de festim Mamãe contou que eu faço um bruto sucesso Em Quixeramobim Não sei como o maracatu começou Mas vou até o fim Por conta de umas questões paralelas Quebraram meu bandolim Não querem mais ouvir as minhas mazelas E a minha voz chinfrim Criei barriga, minha mula empacou Mas vou até o fim Não tem cigarro, acabou minha renda Deu praga no meu capim Minha mulher fugiu com o dono da venda O que será de mim? Eu já nem lembro pronde mesmo que vou Mas vou até o fim Como já disse era um anjo safado O chato dum querubim Que decretou que eu tava predestinado A ser todo ruim Já de saída a minha estrada entortou Mas vou até o fim Chico Buarque
Com licença poética Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: - Vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não tão feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos (dor não é amargura). Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou. Adélia Prado
Poema de sete faces Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. As casas espiam os homens que correm atrás de mulheres. A tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos. O bonde passa cheio de pernas: pernas brancas pretas amarelas. Para que tanta perna, meu Deus?, pergunta meu coração. Porém meus olhos não perguntam nada. O homem atrás do bigode é sério, simples e forte. Quase não conversa. Tem poucos , raros amigos o homem atrás dos óculos e do bigode. Meu Deus, por que me abandonaste se sabias que eu não era Deus se sabias que eu era fraco? Mundo mundo vasto mundo se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não seria uma solução. Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração. Eu não devia te dizer mas essa lua mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo. Carlos Drummond de Andrade 10.12.02 Mãe e filho
Desenho de Audrey Hepburn. O poema de Audrey For attractive lips, speak words of kindness. For lovely eyes, seek out the good in people. For a slim figure, share your food with the hungry. For beautiful hair, let a child run his fingers through it once a day. For poise, walk with the knowledge you'll never walk alone ... People, even more than things, have to be restored, renewed, revived, reclaimed and redeemed and redeemed and redeemed. Never throw out anybody. Remember, if you ever need a helping hand, you'll find one at the end of your arm. As you grow older you will discover that you have two hands. One for helping yourself, the other for helping others. Ao contrário do que muitos pensam, o poema acima não é de autoria de Audrey, mas sim de Sam Levenson, que o escreveu para seus netos. Time Tested Beauty Tips (é assim o nome do poema), entretanto, era um de seus preferidos, sempre presente em suas leituras para crianças. Trilha sonora para uma foto
Moonriver Lisete Uma tarde eu estava andando pelas ruas para comprar presentes de Natal. As ruas estavam muito cheias de pessoas comprando presentes. No meio daquela gente toda vi um agrupamento, fui olhar: era um homem vendendo vários micos, todos vestidos de gente e muito engraçados. Pensei que todos de casa iam ficar adorando o presente de Natal, se fosse um miquinho. Escolhi uma miquinha muito suave e linda, que era muito pequena. Estava vestida com saia vermelha e usava brincos e colares baianos. Era muito delicada conosco e dormia o tempo todo. Foi batizada com o nome de Lisete. Às vezes, parecia sorrir pedindo desculpas por dormir tanto. Comer, quase não comia, e ficava parada num cantinho só dela. No quinto dia comecei a desconfiar que Lisete não estava bem de saúde. Pois não era normal o jeito calado dela. No sexto dia quase dei um grito quando adivinhei: "Lisete está morrendo! Vamos levá-la a um veterinário!" Veterinário é médico que só cuida de bichos. Ficamos muito assustados porque já amávamos Lisete e sua carinha de mulher. Ah, meu Deus, como nós gostávamos de Lisete! E como nós queríamos que ela não morresse! Ela já fazia parte de nossa família. Enrolei Lisete num guardanapo e fomos de táxi correndo para um hospital de bichos. Lá deram-lhe imediatamente uma injeção para ela não morrer logo. A injeção foi boa que até parecia que ela estava curada para sempre, porque de repente ficou tão alegre que pulava de um canto para outro, dava guinchos de felicidade, fazia caretinhas de macaco mesmo, estava doida para agradar a gente. Descobrimos, então, que ela nos amava muito e que não demonstrava antes porque estava tão doente que não tinha forças. Mas, quando passou o efeito da injeção, ela de repente parou de novo e ficou toda quieta e triste na minha mão. O médico então disse uma coisa horrível: que Lisete ia morrer. Aí compreendemos que Lisete já estava muito doente quando a comprei. O médico disse que não se compram macacos na rua porque às vezes estão muito doentes. Nós perguntamos, muito nervosos: - E agora? Que é que o senhor vai fazer? Ele respondeu assim: - Vou tentar salvar a vida de Lisete, mas ela tem que passar a noite no hospital. Voltamos para casa com o guardanapo vazio e o coração vazio também. Antes de dormir, pedi a Deus para salvar Lisete. No dia seguinte, o veterinário ligou avisando que Lisete tinha morrido durante a noite. Compreendi então que Deus queria levá-la. Fiquei com os olhos cheios de lágrimas e não tinha coragem de dar esta notícia ao pessoal de casa. Afinal, avisei e todos ficaram muito, muito tristes. De pura saudade, um de meus filhos perguntou: - Você acha que ela morreu de brincos e colar? Eu disse que tinha certeza que sim e que, mesmo morta, ela continuaria linda. Também de pura saudade, o outro filho olhou para mim e disse, com muito carinho: - Você sabe, mamãe, que você se parece muito com Lisete? Se vocês pensam que eu me ofendi porque me parecia com Lisete, estão enganados. Primeiro, porque a gente se parece mesmo com um macaquinho; segundo, porque Lisete era cheia de graça e muito bonita. - Obrigada, meu filho - foi isso que eu disse a eles e dei-lhe um beijo no rosto. Um dia desses vou comprar um miquinho com saúde. Mas esquecer Lisete? De Clarice Lispector, do livro A mulher que matou os peixes 9.12.02 Um livro Sorri da pergunta: tenho vivido uma parte de minha vida no meio de livros, conheço livros, lido com livros, sou capaz de distinguir um livro à primeira vista no meio de quaisquer outros objetos, sejam eles garrafas, tijolos ou cerejas maduras - sejam quais forem. Aquilo não era um livro, e mesmo supondo que houvesse livros encadernados em louça, aquilo não seria um deles: não parecia de modo algum um livro. Minha resposta demorou no maximo dois segundos: - No, it's not! Trecho da crônica Aula de inglês, de Rubem Braga 7.12.02 Fashion victim
McArthur Photography 6.12.02 O ensino Então um Professor disse: - Fala-nos do Ensino. E ele respondeu: - Nenhum homem vos pode revelar nada que não repouse já meio adormecido na manhã do vosso conhecimento. O mestre que caminha à sombra do templo, entre os discípulos, não reparte a sua sabedoria mas antes sua fé e seu amor. Se for verdadeiramente sábio, não vos convidará a entrar na casa da sabedoria, mas levar-vos-á aos umbrais do vosso próprio espírito. O astrônomo pode falar-vos da sua compreensão do espaço, mas não pode dar-vos a sua compreensão. O músico pode cantar para vós a melodia que enche todo o espaço, mas não pode dar-vos o ouvido que aprende o ritmo nem a voz que lhe devolve o eco. E o que é versado na ciência dos números, pode falar nas relações dos pesos e medidas, mas não pode levar-vos até lá. Porque a visão de um homem não pode emprestar as suas asas a outro homem. E assim como cada um de vós se aguenta sozinho no conhecimento de Deus, assim deve estar sozinho no seu conhecimento de Deus e na compreensão da terra. Gibran Khalil Gibran, em O profeta Recompensas Lecionar apresenta, às vezes, algumas dificuldades. De vez em quando você se pergunta: será que seu esforço está valendo a pena? Mas, quando chegam as recompensas, não há dinheiro no mundo que pague a satisfação de estar transmitindo conhecimento e melhorando, de alguma forma, a vida de um outro ser humano. Digo tudo isso porque ontem, ao chegar na faculdade onde dou aula, uma aluna me surpreendeu com um livro de presente. O que me chamou a atenção não foi tanto o livro (O espelho e a máscara, do Ciro Marcondes Filho, que adorei!), mas a forma com que ele me foi entregue, como uma maneira de demonstrar profunda gratidão, a mesma gratidão que achei expressa na dedicatória. Me digam: há dinheiro no mundo que pague isso? 5.12.02 Nas alturas (título meu) Meu coração é livre como os meus versos e voa alto por céus claros embora tropece às vezes nas tortas calçadas da vida. Mas isso, convenhamos, não tem a menor importância. Márcia Maia Barbarella
Clique na figura para vê-la (bem) ampliada. 4.12.02 Continuando Ouça Experiência Experiência era uma luz, um clarão, um insight num blecaute. éramos nós sem ação, como quem vai a nocaute. era uma revelação e era também um segredo; era sem explicação, sem palavras e sem medo era uma contemplação como com lente que aumenta; era o espaço em expansão e o tempo em câmara lenta. era tudo em comunhão com o um e tudo à solta; era uma outra visão das coisas à nossa volta e as coisas eram as coisas: a folha, a flor e o grão, o sol no azul e depois as estrelas no preto vão. e as coisas eram as coisas com intensificação, que as coisas eram as coisas porém em ampliação era como se as víssemos entrando nelas então, com sentidos agudíssimos desvelando seu desvão, indo por entre, por dentro, aprendendo a apreensão de tudo bem dês do centro, do fundo, do coração. era qual uma lição del viejo brujo don juan; uma complexa questão sem nexo qual um koan; um signo sem tradução no plano léxico-semântico; enigma, contradição no nível de um campo quântico era qual uma visão de um milagre microscópico, do infinito num botão, e em ritmo caleidoscópico, ciclos de aniquilação e criação sucessiva, átomos em mutação, cósmica dança de shiva. e as coisas ao nosso ver davam no fundo a impressão de ser de ser e não-ser a sua composição; como a onda tão etérea e a partícula não tão num ponto tal da matéria tanto 'tão quanto não 'tão. até que ponto resistem a lógica e a razão, já que nas coisas existem coisas que existem e não? o que dizer do indizível, se é preciso precisão, pra quem crê no que é incrível não devanear em vão? era uma vez num verão, num dia claro de luz, há muito tempo, um tempão, ao som das ondas azuis. e as coisas aquela vez eram qual foram e são, só que tínhamos os pés um tanto fora do chão. de chico césar e carlos rennó
Lindo! Depende de nós... O meu preferido Apanhadas no chão, do preferido: Paulo Mendes Campos! - De um amigo meu, no bar: "Trabalho tanto que não tenho tempo para nada; à noite, bebo um pouco para lembrar as minhas mágoas." - De um vendedor de cinzeiros de barro em Belém: "Se eu escrever com C, em vez de S, ninguém vai comprar." - De um conhecido meu, quando lhe disse que certo homem público, embora de poucas luzes, era grave e honesto: "O jumento também é grave e honesto." - Do mais preto, passando por mim, quando o menos preto lhe disse que ele só pensava em mulher: "Ué, pensar então em quê?" - De uma expressão mineira: "Fala mais que pobre na chuva." - Do finado Humphrey Bogart: "Um homem está sempre duas doses abaixo do normal." - De um forjador de provérbios: "Caranguejo idoso pensa muito e brinca pouco." - De um velhinho, ante o ar conjectural do caixeiro, quando pediu na livraria um manual sobre limitação de filhos: "Não é para mim; é para papai." - Do matuto para o médico: "Foi tiro e queda, doutor: a pílula desceu e parou direitinho na casa da dor." - De um velho do interior ao provar soda pela primeira vez: "Tem um gostin de pé dormente." - De Jaime Ovalle: "O importante não é saber se a pessoa gosta de uísque, mas se o uísque gosta da pessoa." - De Camilo Paraguassu, em um poema: "Vista de Paquetá, a lua é linda." - De Garrincha, muito absorto, meio segundo antes de ser dada a saída no jogo do Brasil com o selecionado soviético em 1958: "Olha ali, Nilton, aquele bandeirinha é a cara de seu Carlito..." - Do mesmo, contando ao colega onde comprara uma gravata (Roma): "Foi naquela cidade onde seu Zezé levou aquele tombo no vestiário." - Do mesmo para um companheiro de pelada: "Quer parar de driblar!" - De Osvaldo Cabeça de Ovo, no dia em que seu time de areia perdia de cinco a zero: "Arrecui os arfe para invitar a catastre." - Do treinador, também de praia, Trindade: "A missão do centrefór é atrapaiar os beque." - De um outro treinador para o goleiro: "Carambolou, arreia." - De um torcedor a meu lado, vendo uma jogada magistral do enciclopédia Nilton Santos, errando, paroxismado, na tônica: "Dá-lhe, catédra!" - De Graciliano Ramos, quando ouviu pela primeira vez um rouxinol: "Eta passarinho chato!" - Do cabo Firmino, na revolução de 30, promovido pelo comandante da Força Pública Mineira, por ato de bravura em batismo de fogo: "Uai, seu coronel, tava pensando que era manobra." - De Hemingway sobre a famosa modelo Kiki de Montparnasse: "A única mulher que nunca dormiu em sua própria cama." - De um estudante para mim: "Escritor é o Euclides! Olha só: O sertanejo é - vírgula! - antes de tudo - vírgula! - um forte! - ponto!" Novo layout e novo serviço de comentários. Peço perdão àqueles que deixaram seus comentários ao longo desses meses, mas o Enetation estava deixando muito a desejar.
|
||||
|