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29.11.02

Acorde:

ilustração de Marc Chagall

Tua ausência
Rasa e condoída, é uma lua
Que bóia distraída
Na poça d'água do meu peito

Julio Meirelles

Rafiza Ribeiro | 16:22 |


28.11.02

Corações e estrelas



Belas ilustrações no The French Toast Girl

Rafiza Ribeiro | 10:34 |


27.11.02

Coração em chamas

Julgava-se tão desajeitada que nunca se atreveu a ter um namorado. Além do mais era tímida. O máximo de audácia a que chegou foi escrever para uma revista que mantinha um consultório sentimental. Declarou-se em disponibilidade para um relacionamento amoroso e assinou a declaração com um revelador "Coração em Chamas". Pensou melhor e mudou para "Coração Solitário".Pensou melhor ainda e nem mandou a mensagem! Na semana seguinte, comprou a tal revista e descobriu que havia um outro coração em chamas" pedindo socorro. Era um homem que se dizia cansado de solidão e estava louco para amar alguém. Achou coincidência demais e decidiu procurar o coração em chamas com as chamas do seu próprio coração. Seria um respeitável incêndio. Marcaram um encontro num shopping de Santo André, perto da praça de alimentação. Ela ia de blusa amarela, ele de jeans e camisa xadrez.Foi azar deles. Na praça de alimentação havia umas vinte moças com camisa amarela. E todos os jovens do pedaço pareciam haver combinado: estavam todos de jeans e camisa xadrez. Atordoada ela olhou para aquela confusão. Para falar a verdade, ninguém ali parecia ter coração em chamas. Só o dela, realmente, ficara em chamas com a perspectiva de um encontro, de um destino. Voltou para casa. Tomou coragem sim, mandou a mensagem pedindo a outra metade do coração em chamas.

Carlos Heitor Cony

Rafiza Ribeiro | 22:33 |


26.11.02



Clique na figura para ver um show de Truffaut.
P.s.: para ver o filme é necessário ter instalado o QuickTime. Faça o download aqui!

Rafiza Ribeiro | 01:30 |


25.11.02

Para refletir

Sonhos

Rafiza Ribeiro | 15:50 |


Fotografia: ImageState

Ser

O filho que não fiz
hoje seria homem.
Ele corre na brisa,
sem carne, sem nome.

Às vezes o encontro
num encontro de nuvem.
Apóia em meu ombro
seu ombro nenhum.

Interrogo meu filho,
objeto de ar:
em que gruta ou concha
quedas abstrato?

Lá onde eu jazia,
responde-me o hálito,
não me percebeste,
contudo chamava-te
como ainda te chamo
(além, além do amor)
onde nada, tudo
aspira a criar-se.

O filho que não fiz
faz-se por si mesmo.

Carlos Drummond de Andrade

Rafiza Ribeiro | 14:12 |


Colegial

Quando estava na escola, esse texto era moda. Hoje uma aluna me mandou uma cópia, por e-mail. Adorei!

Rafiza Ribeiro | 00:54 |


23.11.02

Hermeneuta

Certas palavras tem o significado errado (...). Hermeneuta deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Aonde eles chegassem, tudo se complicaria.
- Os hermeneutas estão chegando!
- Ih, agora é que ninguém vai entender mais nada...
Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até que as coisas recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto.
- Alô...
- O que é que você quer dizer com isso?

Trecho da crônica Defenestração, de Luis Fernando Veríssimo

Rafiza Ribeiro | 13:36 |


21.11.02

Lindo



A foto é do DigitalPhoto Contest. O presente é Dela!

Rafiza Ribeiro | 11:18 |


O mundo é grande

Rafiza Ribeiro | 10:54 |


20.11.02

Das consequências.


Consequência de n.1.


Não deixo mais de me espantar com a vida,
só porque todas as coisas são muito parecidas.


Consequência de n.2.


Não deixo mais de ser feliz,
só porque a felicidade escapou por um triz.


Consequência de n.3.


Não deixo mais de ser poeta,
só porque a vida tem um quê de abjeta.


Consequência de n.4.


Não deixo mais de querer surpreender as pessoas,
só porque não param para ouvir,
só porque não têm por onde admitir.


Consequência de n.5.


Não deixo de me sentir bem,
só porque você não vem.

Do Alexandre. Adorei!

Rafiza Ribeiro | 09:29 |


18.11.02

Asas



imagem: Getty Images

Rafiza Ribeiro | 15:04 |


Asas das palavras

Certas palavras nos dão a impressão de que voam, ao saírem da boca. "Sílfide", por exemplo. É dizer "Sílfide" e ficar vendo suas evoluções no ar, como as de uma borboleta. Não tem nada a ver com o que a palavra significa. "Sílfide", eu sei, é o feminino de "silfo", o espírito do ar, e quer mesmo dizer uma coisa diáfana, leve, borboleteante. Mas experimente dizer "silfo". Não voou, certo?

Trecho da crônica Pudor, de Luis Fernando Veríssimo

Rafiza Ribeiro | 14:56 |


14.11.02

E no meio de um velho livro de Paulo Mendes Campos...



É por essas e outras que eu adoro livros velhos...

Rafiza Ribeiro | 12:19 |


11.11.02

Diáfana


Obra de Arpad Szenes

Concha, mas de orelha; Água, mas de lágrima; Ar com sentimento. - Brisa, viração. Da asa de uma abelha. (De Manuel Bandeira)

Rafiza Ribeiro | 18:08 |


9.11.02


Quadro de Cândido Portinari

"Tanto naquelas leituras se enfrascou, que passava as noites de claro em claro e os dias de escuro em escuro, e assim, do pouco dormir e do muito ler, se lhe secou o cérebro, de maneira que chegou a perder o juízo. Encheu-se-lhe a fantasia de tudo que achava nos livros, assim de encantamentos, como pendências, batalhas, desafios, feridas, requebros, amores, tormentas, e disparates impossíveis: e assentou-se-lhe de tal modo na imaginação ser verdade toda aquela máquina de sonhadas invenções que lia, que para ele não havia história mais certa no mundo"

Trecho de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes

Rafiza Ribeiro | 15:24 |


8.11.02

Vem, pra você ver uma coisa...



Fotografia: Getty Images

Rafiza Ribeiro | 23:14 |


Sinceridade ainda que tardia
(Ou: parenteses na história do jornalismo)

Fórum lulou

O primeiro editorial de Fórum registrava: há lados. Enquanto houver. Um. Jornalismo é opção. Não fazer de conta. Os lados existem. Assumi-los é parte do jogo. É honesto.

Tchau picaretagem. Às favas com a dita imparcialidade. Ela tem lado. Cala a mudança. Aceita o jogo dos que sempre ganham. E custa caro. Faz de conta de que conta dá zero. Mente.

Viva a independência. Desejável e necessária. Antipanfletária. Que acena pro lado sem desejos. Sem troca-troca e quero-quero. Independência que tem compromisso com o compromisso. Sem negócios. persegue a lógica da verdade.

Fórum lulou. Por que Lula tem um lado. Serra outro. Cada qual representa um projeto. Distintos. E o projeto de Lula é mais próximo ao de Fórum, que só existe por seus compromissos. É revista de opinião. Não invade a casa de ninguém. Não vende a idéia de que faz de conta. Não é concessão pública.

Lulamos com convicção. Escolhe-se pelo passado e pelo presente, apostando no futuro. É o que estamos fazendo.

São quatro páginas falando (bem) de Lula. Quantidade justa para o momento. Não é para marcar posição. Mas para destruir discursos. De inconsistências e incompetências de uma candidatura e de um partido que têm belas histórias. Que são marcos mundiais de um novo projeto. E quiçá vão ao poder.

Do editorial de Fórum

Rafiza Ribeiro | 22:58 |


7.11.02

Segredo

Há muitas coisas que a psicologia não nos explica. Suponhamos que você esteja em um 12º andar. Em companhia de amigos, e, debruçando-se à janela, distinga lá embaixo, inesperada naquele momento, a figura de seu pai, procurando atravessar a rua ou descansando em um banco diante do mar. Só isso. Por que, então, todo esse alvoroço que visita a sua alma de repente, essa animação provocada pela presença distante de uma pessoa da sua intimidade? Você chamará os amigos para mostrar-lhes o vulto de traços fisionômicos invisíveis: - Aquele ali é papai!. E os amigos também hão de sorrir, quase enternecidos, participando um pouco de sua glória, pois é inexplicavelmente tocante ser amigo de alguém cujo pai se encontra longe, fora do alcance do seu chamado.

Outro exemplo: você ama e sofre por causa de uma pessoa e com ela se encontra todos os dias. Por que, então, quando esta pessoa aparece à distância, em hora desconhecida aos seus encontros, em uma praça, em uma praia, voando na janela de um carro, por que essa ternura violenta dentro de você, e essa admirável compaixão?

Por que motivo reconhecer uma pessoa ao longe sempre nos induz a um movimento interior de doçura e piedade?

Às vezes, trata-se de um simples conhecido. Você o reconhece de longe em um circo, um teatro, um campo de futebol, e é impossível não infantilizar-se diante da visão.

Até para os nossos inimigos, para com as pessoas que nos são antipáticas, à distância, em relação ao desafeto, atua sempre em sentido inverso. Ver um inimigo ao longe é perdoá-lo bastante.

Mais um caso: dois amigos íntimos se vêem inesperadamente de duas janelas. Um deles está, digamos, no consultório do dentista, o outro visita o escritório de um advogado no centro da cidade. Cinco horas da tarde; lá embaixo, o tráfego estridula; ambos olham distraídos e cansados quando se descobrem mutuamente. Mesmo que ambos, uma hora antes, estivessem juntos, naquele encontro súbito e de longe é como se não se vissem há muito tempo; com todas as graças da alma despertas, eles começam a acenar-se, a dar gritos, a perguntar por gestos o que o outro faz do outro lado. Como se tudo isso fosse um mistério.

E é um mistério.

De Paulo Mendes Campos

Rafiza Ribeiro | 15:32 |


5.11.02

cem gatos e um rato >> ilustração de vittorio

Essa Clarice...

Antes de começar, quero que vocês saibam que meu nome é Clarice. E vocês, como se chamam? Digam baixinho o nome de vocês e o meu coração vai ouvir. Peço que leiam essa história até o fim. Vou contar umas coisas: minha casa tem bichos naturais. Bichos naturais são aqueles que a gente não convidou nem comprou. Por exemplo, nunca convidei uma barata para morar comigo.

Minha casa tem muitos bichos naturais, menos rato, graças a Deus, porque tenho medo e nojo deles. Quase todas as mães tem medo de rato. Os pais não: até gostam porque se divertem caçando e matando esse bicho que detesto. Vocês tem pena de rato?
Eu tenho, porque não é um bicho bom para a gente amar e fazer carinho. Vocês fariam carinho num rato?

De Clarice Lispector em A mulher que matou os peixes, 1974

Rafiza Ribeiro | 16:36 |


Voltei a ser poiesis!

Rafiza Ribeiro | 12:05 |