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28.10.02 Por não estarem distraídos Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos. Clarice Lispector 19.10.02 Mondrian
Walking Around Acontece que me canso de meus pés e de minhas unhas, do meu cabelo e até da minha sombra. Acontece que me canso de ser homem. Todavia, seria delicioso assustar um notário com um lírio cortado ou matar uma freira com um soco na orelha. Seria belo ir pelas ruas com uma faca verde e aos gritos até morrer de frio. Passeio calmamente, com olhos, com sapatos, com fúria e esquecimento, passo, atravesso escritórios e lojas ortopédicas, e pátios onde há roupa pendurada num arame: cuecas, toalhas e camisas que choram lentas lágrimas sórdidas. Pablo Neruda 18.10.02 Surpresa Me surpreendi ao escutar Elza Soares cantando O Ciúme, de Caetano Veloso. Só essa faixa já faz valer o novo disco inteiro da diva: "o ciúme dói nos cotovelos/ na raiz dos cabelos/ gela a sola dos pés/ faz os músculos ficarem moles/ e o estômago vão/ e sem fome/ dói da flor da pele até o osso/ rói do cóccix até o pescoço..." 14.10.02
Beatriz olha,será que é ela é moça será que ela é triste será que é o contrário será que é pintura o rosto da actriz se ela dança no sétimo céu se ela acredita que é outro país e se ela só decora o seu papel e seu pudesse entrar na sua vida. olha,será que é de louça, será que é de eter, será que é loucura, será que é cenário, a casa da actriz se ela mora num arranha-céus, e se as paredes são feitas de giz, e se ela chora num quarto de hotel e se eu pudesse entrar na sua vida. sim,me leva para sempre beatriz me ensina a não andar com os pés no chão. para sempre é sempre por um triz. ai,diz quantos disastres tem na minha mão, diz se é perigoso a gente ser feliz. olha,será que é uma estrela, será que é mentira, será que é comédia, será que é divina, a vida da actriz se um dia despenca do céu, e se os pagantes exigirem bis e se um arcanjo passar o chapéu e se eu pudesse entrar na sua vida. Chico Buarque e Edu Lobo Estas Velhas Árvores O homem idoso foi caminhar no Parque Guinle. Compreendeu mais que nunca a lição da árvore de fruta-pão, trinta metros de elevação e sobranceria. O tronco gigante, os frutos opíparos, folhas fartas, liderança. Vivendo, fase da vida em que a memória remota suplanta a recente, o homem idoso dera para fazer balanços. Deu-se conta de que árvores sempre foram importantes em sua vida. Mais que passarinho. Nunca apreendera passarinho, falta grave, pensou. Felizmente nem em criança colocou-os em gaiolas. Nem dera um teco com a atiradeira mas sentiu saudades dos passarinhos que não conheceu. Lembrou-se da primeira árvore em que subiu, tinha espinho nos galhos, uma idosa Buganvília encostada à varanda da casa de vila onde nasceu. Era o tarzã dela. Depois lhe veio a casinhola de tábua que o amigo Fernando Ratão construíra entre galhos fortes da Amendoeira de sua casa, ao tempo em que a Rua Visconde de Pirajá ainda permitia quintais com árvores. Correu-lhe na memória uma caramboleira inesquecível, bastava atravessar escondido a perigosa Visconde de Pirajá então com bondes, ônibus e poucos carros em duas mãos, e pular o muro de um colégio que fechara. Dos seus tempos de ginásio interno no Colégio Batista, recordou proibidas pitangueiras, de uma árvore de abiu e muitas jaqueiras. Memória solta, indisciplinada. Veio-lhe a emoção das figueiras do avô, lá no Sul, tão acessíveis em seus frutos doces que os passarinhos descobriam primeiro e bicavam. Um dia leu: figo é flor. Sim, inflorescência. Foi-lhe revelação poética mais que botânica. Como certa vez, exilado político no Chile, num domingo de tédio, nesses almoços com muita gente faladeira, saiu a caminhar na imensa propriedade do anfitrião e descobriu algo nunca antes visto por ele em trinta anos de vida: um campo de macieiras, com maçãs ainda no pé, vermelhas, túmidas por fora e úmidas por dentro, suprema delícia. Jamais colhera maçã no pé e aquele campo de pomos rubros, ademais perfumado, levou-o à emoção da lágrima num domingo de tédio no exílio. O homem idoso deu de si e sorriu. Chegara a um ponto temerário da vida, pois começava a se comprazer mais no passado que no futuro. Este, de horizonte passa a funil. Afastou o pensamento depressivo, tolice, o mesmo milagre que fez a vida se encarregará do futuro. Lembrou-se de uma sábia da cidade de Zaragoza na Espanha que lhe disse: a angústia da morte nada tem a ver com a morte real. Voltou-se de novo para as árvores pois estava defronte de uma pata de vaca de flores brancas, aquela cujo chá das folhas diminui glicose no sangue diabético. Mas percebeu em seguida que era primavera e explodia vida a seu lado. A ela se associou-se com alegria. E ficou a pensar que nós não deveríamos fazer anos. Deveríamos ter estações, como as árvores. Sentiu uma extra-sístole mas desta vez não se assustou. Artur da Távola 11.10.02 Mães
Mães Procurando um texto do Veríssimo, o Érico, achei este outro... Lindo de outra forma, vale a pena ler... Homenagem ao meu filho 8.10.02 Outono
Fotografia de Cindy Pitts 6.10.02 O peixinho Era uma vez um homem que estava pescando, Maria. Até que apanhou um peixinho! Mas o peixinho era tão pequenininho e inocente, e tinha um azulado tão indescritível nas escamas, que o homem ficou com pena. E retirou cuidadosamente o anzol e pincelou com iodo a garganta do coitadinho. Depois guardou-o no bolso traseiro das calças, para que o animalzinho sarasse no quente. E desde então ficaram inseparáveis. Aonde o homem ia, o peixinho o acompanhava, a trote, que nem um cachorrinho. Pelas calçadas. Pelos elevadores. Pelos cafés. Como era tocante vê-los no "17"! - o homem, grave, de preto, com uma das mãos segurando a xícara de fumegante moca, com a outra lendo o jornal, com a outra fumando, com a outra cuidando o peixinho, enquanto este, silencioso e levemente melancólico, tomava laranjada por um canudinho especial... Ora , um dia o homem e o peixinho passeavam à margem do rio onde o segundo dos dois fora pescado. E eis que os olhos do primeiro se encheram de lágrimas. E disse o homem ao peixinho: "Não , não me assiste o direito de te guardar comigo. Por que roubar-te por mais tempo ao carinho do teu pai, da tua mãe, dos teus irmãozinhos, da tua tia solteira? Não, não e não! Volta para o seio da tua família . E viva eu cá na terra sempre triste!..." Dito isto, verteu copioso pranto e, desviando o rosto, atirou o peixinho nágua. E a água fez um redemoinho, que foi depois serenando, serenando...até que o peixinho morreu afogado... Mario Quintana É hoje!
Vote com orgulho! 5.10.02 Gente
"Non siamo angeli in volo venuti dal cielo Ma gente comune che ama davvero Gente che vuole un mondo più vero La gente che insieme lo cambierà Gente che vuole un mondo più vero La gente che insieme lo cambierà" Cheope & Valsiglio Ilha... Ilha não é só um pedaço de terra cercado de água por tudo quanto é lado. Ilha é qualquer coisa que se desprendeu de qualquer continente. Por exemplo: um garoto tímido abandonado pelos amigos no recreio, é uma ilha. Um velho que esperou a visita dos netos no Natal e não apareceu ninguém, é uma ilha. Até um cara assoviando leve, bem humorado, numa rua cheia de trânsito e stress, é uma ilha. Tudo na gente que não morreu, cercado por tudo o que mataram, é uma ilha. Toda ilha é verde. Uma folha caindo é ilha cercada de vento por tudo quanto é lado. Até a lágrima é ilha, deslizando no oceano da cara. Oswaldo Montenegro Epígrafe As únicas coisas eternas são as nuvens... Mario Quintana 3.10.02
A Lista Faça uma lista de grandes amigos Quem você mais via há dez anos atrás Quantos você ainda vê todo dia Quantos você já não encontra mais Faça uma lista dos sonhos que tinha Quantos você desistiu de sonhar Quantos amores jurados pra sempre Quantos você conseguiu preservar Onde você ainda se reconhece Na foto passada ou no espelho de agora Hoje é do jeito que achou que seria? Quantos amigos você jogou fora Quantos mistérios que você sondava Quantos você conseguiu entender? Quantos defeitos sanados com o tempo Eram o melhor que havia em você Quantas mentiras você condenava Quantas você teve que cometer Quantas canções que você não cantava Hoje assobia pra sobreviver Quantos segredos que você guardava Hoje são bobos ninguém quer saber Quantas pessoas que você amava Hoje acredita que amam você Oswaldo Montenegro 2.10.02 Windows Como o Windows Funciona... O Dizem... deu a dica. Fui lá conferir e voltei com meu banner. Estou há pouco tempo por aqui (3 anos), mas me entristeço profundamente com o que vem acontecendo. Como nordestina, sempre achei que coronelismo só ocorria por lá. Me enganei. 1.10.02 Kiss me
Luzinha do bem Existe uma luzinha no seu peito. Uma luz que os olhos não vêem. Mas quando ela está acesa, a gente sente. Quando você a acende, aparecem sentimentos bons em seu peito. Tudo fica mais bonito e gostoso. Ela faz você se sentir alegre. Quando você a apaga, aparecem sentimentos maus. Tudo fica mais feio e dolorido. Sem ela, você se sente triste. Quando está acesa e brilhante, ela sai pela boca, fazendo-nos sorrir. Ela também sai pelos olhos, fazendo-os brilhar. Do livro infantil Se ligue em você, de Luiz Antonio Gasparetto, o Tio Gaspa.
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