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28.10.02

Lula aqui!

Embora as eleições do DF tenham decepcionado (assim como na minha terrinha), eu comemoro.
Comemoro pelo país, comemoro por mim.
Nunca pensei que um dia veria o Lula sendo eleito presidente do Brasil, e ainda por cima em meio a uma campanha tão bonita e tão feliz!
Não foram poucas as vezes em que chorei ontem. Um choro de esperança e alegria. Lula aqui. Meu "vizinho".

Amanhã

Amanhã, será um lindo dia, da mais louca alegria
Que se possa imaginar
Amanhã, redobrada força p'ra cima, que não cessa
Há de vingar

Amanhã, mais nenhum mistério, acima do ilusório
O astro-rei vai brilhar
Amanhã a luminosidade, alheia a qualquer vontade
Há de imperar

Amanhã está toda esperança por menor que pareça
Existe, e é p'ra vicejar
Amanhã, apesar de hoje, será a estrada que surge
P'ra se trilhar

Amanhã, mesmo que uns não queiram
será de outros que esperam
Ver o dia raiar
Amanhã, ódios aplacados,
temores abrandados, será pleno

Guilherme Arantes

Quando cheguei em Brasília, era um dia de chuva.
Do avião, avistei pela primeira vez a terra vermelha do Planalto Central.
Me disseram que a chuva era um sinal de boa sorte, que meu sonho se realizaria.
Ontem, depois de tantos dias de sol escaldante, choveu novamente no DF.
E Lula chega a presidência banhado por essa chuva, que eu quero que seja um presságio de sonhos que se realizarão. Sonhos para o Brasil.
Um dia, espero que essa mesma chuva leve embora as ervas daninhas que se alastram pelo governo do Distrito Federal.
Não sou daqui, mas política, o "gesto amoroso para com o povo" do qual falou Frei Betto, não tem território.
Ontem, a mesma chuva que trouxe a mudança, que trouxe o Lula, foi também as lágrimas de um povo cansado de ver ocupando o posto de governador, o argh"!, nem ouso repetir o nome.
Mas um dia o sol vai brilhar em meio a chuva no DF e toda a corja que o encobre derramará suas próprias lágrimas. E o povo não terá mais "medo de ser feliz"!

Rafiza Ribeiro | 17:29 |


23.10.02

Vaidade

Rafiza Ribeiro | 23:42 |


Por não estarem distraídos

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

Clarice Lispector

Rafiza Ribeiro | 23:40 |


19.10.02

Mondrian

Rafiza Ribeiro | 16:53 |


Walking Around

Acontece que me canso de meus pés e de minhas unhas,
do meu cabelo e até da minha sombra.
Acontece que me canso de ser homem.

Todavia, seria delicioso
assustar um notário com um lírio cortado
ou matar uma freira com um soco na orelha.
Seria belo
ir pelas ruas com uma faca verde
e aos gritos até morrer de frio.

Passeio calmamente, com olhos, com sapatos,
com fúria e esquecimento,
passo, atravesso escritórios e lojas ortopédicas,
e pátios onde há roupa pendurada num arame:
cuecas, toalhas e camisas que choram
lentas lágrimas sórdidas.

Pablo Neruda

Rafiza Ribeiro | 16:49 |


18.10.02

Surpresa

Me surpreendi ao escutar Elza Soares cantando O Ciúme, de Caetano Veloso. Só essa faixa já faz valer o novo disco inteiro da diva: "o ciúme dói nos cotovelos/ na raiz dos cabelos/ gela a sola dos pés/ faz os músculos ficarem moles/ e o estômago vão/ e sem fome/ dói da flor da pele até o osso/ rói do cóccix até o pescoço..."

Rafiza Ribeiro | 10:24 |


14.10.02



Beatriz

olha,será que é ela é moça
será que ela é triste
será que é o contrário
será que é pintura
o rosto da actriz se ela dança no sétimo céu
se ela acredita que é outro país
e se ela só decora o seu papel
e seu pudesse entrar na sua vida.

olha,será que é de louça,
será que é de eter,
será que é loucura,
será que é cenário,
a casa da actriz se ela mora num arranha-céus,
e se as paredes são feitas de giz,
e se ela chora num quarto de hotel
e se eu pudesse entrar na sua vida.

sim,me leva para sempre beatriz
me ensina a não andar com os pés no chão.
para sempre é sempre por um triz.
ai,diz quantos disastres tem na minha mão,
diz se é perigoso a gente ser feliz.

olha,será que é uma estrela,
será que é mentira,
será que é comédia,
será que é divina,
a vida da actriz se um dia despenca do céu,
e se os pagantes exigirem bis
e se um arcanjo passar o chapéu
e se eu pudesse entrar na sua vida.

Chico Buarque e Edu Lobo

Rafiza Ribeiro | 14:46 |


Estas Velhas Árvores

O homem idoso foi caminhar no Parque Guinle. Compreendeu mais que nunca a lição da árvore de fruta-pão, trinta metros de elevação e sobranceria. O tronco gigante, os frutos opíparos, folhas fartas, liderança. Vivendo, fase da vida em que a memória remota suplanta a recente, o homem idoso dera para fazer balanços. Deu-se conta de que árvores sempre foram importantes em sua vida. Mais que passarinho. Nunca apreendera passarinho, falta grave, pensou. Felizmente nem em criança colocou-os em gaiolas. Nem dera um teco com a atiradeira mas sentiu saudades dos passarinhos que não conheceu. Lembrou-se da primeira árvore em que subiu, tinha espinho nos galhos, uma idosa Buganvília encostada à varanda da casa de vila onde nasceu. Era o tarzã dela. Depois lhe veio a casinhola de tábua que o amigo Fernando Ratão construíra entre galhos fortes da Amendoeira de sua casa, ao tempo em que a Rua Visconde de Pirajá ainda permitia quintais com árvores. Correu-lhe na memória uma caramboleira inesquecível, bastava atravessar escondido a perigosa Visconde de Pirajá então com bondes, ônibus e poucos carros em duas mãos, e pular o muro de um colégio que fechara. Dos seus tempos de ginásio interno no Colégio Batista, recordou proibidas pitangueiras, de uma árvore de abiu e muitas jaqueiras.

Memória solta, indisciplinada. Veio-lhe a emoção das figueiras do avô, lá no Sul, tão acessíveis em seus frutos doces que os passarinhos descobriam primeiro e bicavam. Um dia leu: figo é flor. Sim, inflorescência. Foi-lhe revelação poética mais que botânica. Como certa vez, exilado político no Chile, num domingo de tédio, nesses almoços com muita gente faladeira, saiu a caminhar na imensa propriedade do anfitrião e descobriu algo nunca antes visto por ele em trinta anos de vida: um campo de macieiras, com maçãs ainda no pé, vermelhas, túmidas por fora e úmidas por dentro, suprema delícia. Jamais colhera maçã no pé e aquele campo de pomos rubros, ademais perfumado, levou-o à emoção da lágrima num domingo de tédio no exílio.

O homem idoso deu de si e sorriu. Chegara a um ponto temerário da vida, pois começava a se comprazer mais no passado que no futuro. Este, de horizonte passa a funil. Afastou o pensamento depressivo, tolice, o mesmo milagre que fez a vida se encarregará do futuro. Lembrou-se de uma sábia da cidade de Zaragoza na Espanha que lhe disse: a angústia da morte nada tem a ver com a morte real. Voltou-se de novo para as árvores pois estava defronte de uma pata de vaca de flores brancas, aquela cujo chá das folhas diminui glicose no sangue diabético. Mas percebeu em seguida que era primavera e explodia vida a seu lado. A ela se associou-se com alegria. E ficou a pensar que nós não deveríamos fazer anos. Deveríamos ter estações, como as árvores. Sentiu uma extra-sístole mas desta vez não se assustou.

Artur da Távola

Rafiza Ribeiro | 14:31 |


11.10.02

Mães

Rafiza Ribeiro | 09:56 |


Mães

Procurando um texto do Veríssimo, o Érico, achei este outro...
Lindo de outra forma, vale a pena ler...

Homenagem ao meu filho

Rafiza Ribeiro | 09:54 |


8.10.02

Outono


Fotografia de Cindy Pitts

Rafiza Ribeiro | 15:17 |


6.10.02

O peixinho

Era uma vez um homem que estava pescando, Maria. Até que apanhou um peixinho! Mas o peixinho era tão pequenininho e inocente, e tinha um azulado tão indescritível nas escamas, que o homem ficou com pena. E retirou cuidadosamente o anzol e pincelou com iodo a garganta do coitadinho. Depois guardou-o no bolso traseiro das calças, para que o animalzinho sarasse no quente. E desde então ficaram inseparáveis. Aonde o homem ia, o peixinho o acompanhava, a trote, que nem um cachorrinho. Pelas calçadas. Pelos elevadores. Pelos cafés. Como era tocante vê-los no "17"! - o homem, grave, de preto, com uma das mãos segurando a xícara de fumegante moca, com a outra lendo o jornal, com a outra fumando, com a outra cuidando o peixinho, enquanto este, silencioso e levemente melancólico, tomava laranjada por um canudinho especial... Ora , um dia o homem e o peixinho passeavam à margem do rio onde o segundo dos dois fora pescado. E eis que os olhos do primeiro se encheram de lágrimas. E disse o homem ao peixinho:
"Não , não me assiste o direito de te guardar comigo. Por que roubar-te por mais tempo ao carinho do teu pai, da tua mãe, dos teus irmãozinhos, da tua tia solteira? Não, não e não! Volta para o seio da tua família . E viva eu cá na terra sempre triste!..."
Dito isto, verteu copioso pranto e, desviando o rosto, atirou o peixinho nágua. E a água fez um redemoinho, que foi depois serenando, serenando...até que o peixinho morreu afogado...

Mario Quintana

Rafiza Ribeiro | 23:53 |


É hoje!


Vote com orgulho!

Rafiza Ribeiro | 10:14 |


5.10.02

Gente



"Non siamo angeli in volo venuti dal cielo
Ma gente comune che ama davvero
Gente che vuole un mondo più vero
La gente che insieme lo cambierà

Gente che vuole un mondo più vero
La gente che insieme lo cambierà"

Cheope & Valsiglio

Rafiza Ribeiro | 01:07 |


Ilha...

Ilha não é só um pedaço de terra cercado de água por tudo quanto é lado. Ilha é qualquer coisa que se desprendeu de qualquer continente. Por exemplo: um garoto tímido abandonado pelos amigos no recreio, é uma ilha. Um velho que esperou a visita dos netos no Natal e não apareceu ninguém, é uma ilha. Até um cara assoviando leve, bem humorado, numa rua cheia de trânsito e stress, é uma ilha. Tudo na gente que não morreu, cercado por tudo o que mataram, é uma ilha. Toda ilha é verde. Uma folha caindo é ilha cercada de vento por tudo quanto é lado. Até a lágrima é ilha, deslizando no oceano da cara.

Oswaldo Montenegro

Rafiza Ribeiro | 00:36 |


Epígrafe

As únicas coisas eternas são as nuvens...

Mario Quintana

Rafiza Ribeiro | 00:30 |


3.10.02

Fotografia: IMAGEBANK

A Lista

Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora
Hoje é do jeito que achou que seria?
Quantos amigos você jogou fora
Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você
Quantas mentiras você condenava
Quantas você teve que cometer
Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você

Oswaldo Montenegro

Rafiza Ribeiro | 12:31 |


2.10.02

Windows

Como o Windows Funciona...

Rafiza Ribeiro | 21:07 |


O Dizem... deu a dica. Fui lá conferir e voltei com meu banner.



Estou há pouco tempo por aqui (3 anos), mas me entristeço profundamente com o que vem acontecendo. Como nordestina, sempre achei que coronelismo só ocorria por lá. Me enganei.

Rafiza Ribeiro | 21:02 |


1.10.02

Kiss me

Rafiza Ribeiro | 19:27 |


Luzinha do bem

Existe uma luzinha no seu peito.
Uma luz que os olhos não vêem.
Mas quando ela está acesa, a gente sente.

Quando você a acende, aparecem sentimentos bons em seu peito.
Tudo fica mais bonito e gostoso. Ela faz você se sentir alegre.

Quando você a apaga, aparecem sentimentos maus.
Tudo fica mais feio e dolorido.
Sem ela, você se sente triste.

Quando está acesa e brilhante, ela sai pela boca, fazendo-nos sorrir.
Ela também sai pelos olhos, fazendo-os brilhar.

Do livro infantil Se ligue em você, de Luiz Antonio Gasparetto, o Tio Gaspa.

Rafiza Ribeiro | 19:24 |