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28.9.02 Prima rica, prima pobre (ou melhor: prima famosa, prima anônima)
Filha do seu Fausto, mais prima do meu pai do que minha. Rita é um talento só. Não faz força para cantar, já nasceu passarinho. 25.9.02
Ode ao Café Quintana dizia que ¿fumar é um modo de queimar as ilusões perdidas¿. Não fumo, mas sou jornalista. Bebo café. Há alguma coisa no hábito que transcende o simples sorver a bebida. O café é uma espécie de amigo que, numa redação, tem o charme de convocar a todos para uma rodinha de bate-papo em torno de sua garrafa, no curto tempo entre o cumprimento de uma pauta e outra. Em casa, o café é o amigo que faz companhia quando você está sozinho. Pode ser acompanhado de trilha sonora. Ou deve, dependendo do momento. Blues, jazz, Mozart, ou qualquer outro estilo de música que faça parar e pensar na vida, são bons acompanhamentos. Às vezes, um bom rock¿n¿roll. Os monges do Tibet deveriam ficar em permanente bebericação. O café faz meditar. Mas este café do qual eu falo não pode ser tomado em elegantes rotisseries, acompanhado de croissants. As xícaras servidas nestes locais não ajudam a queimar ilusões perdidas, mas sim acendem novas fantasias que nada tem a ver com o cafezinho. É bem capaz de você achar que está em Paris, recostado na mesma cadeira na qual Victor Hugo se sentou há alguns dias atrás, ou mesmo hoje. E isso tudo sem nunca ter ido a França e mesmo sabendo que o Hugo já não toma um cafezinho há pelo menos um século. Enfim, faz com que você se sinta importante e se esqueça do café em si. Não. O café de que falo é outro. É aquele que é procurado antes do lugar onde se vai toma-lo. Aquele que faz com que projetemos nossos olhos em um ponto qualquer, perdido no espaço. O café que se deixa saborear humildemente, e que se reconhece essencialmente como um meio para catarses. 24.9.02
Fotografia de Marija Milavanovic Apanhadas no chão - De um amigo meu, no bar: "Trabalho tanto que não tenho tempo para nada; à noite, bebo um pouco para lembrar as minhas mágoas." - De um vendedor de cinzeiros de barro em Belém: "Se eu escrever com C, em vez de S, ninguém vai comprar." - De um conhecido meu, quando lhe disse que certo homem público, embora de poucas luzes, era grave e honesto: "O jumento também é grave e honesto." - Do mais preto, passando por mim, quando o menos preto lhe disse que ele só pensava em mulher: "Ué, pensar então em quê?" - De uma expressão mineira: "Fala mais que pobre na chuva." - Do finado Humphrey Bogart: "Um homem está sempre duas doses abaixo do normal." - De um forjador de provérbios: "Caranguejo idoso pensa muito e brinca pouco." - De um velhinho, ante o ar conjectural do caixeiro, quando pediu na livraria um manual sobre limitação de filhos: "Não é para mim; é para papai." - Do matuto para o médico: "Foi tiro e queda, doutor: a pílula desceu e parou direitinho na casa da dor." - De um velho do interior ao provar soda pela primeira vez: "Tem um gostin de pé dormente." - De Jaime Ovalle: "O importante não é saber se a pessoa gosta de uísque, mas se o uísque gosta da pessoa." - De Camilo Paraguassu, em um poema: "Vista de Paquetá, a lua é linda." - De Garrincha, muito absorto, meio segundo antes de ser dada a saída no jogo do Brasil com o selecionado soviético em 1958: "Olha ali, Nilton, aquele bandeirinha é a cara de seu Carlito..." - Do mesmo, contando ao colega onde comprara uma gravata (Roma): "Foi naquela cidade onde seu Zezé levou aquele tombo no vestiário." - Do mesmo para um companheiro de pelada: "Quer parar de driblar!" - De Osvaldo Cabeça de Ovo, no dia em que seu time de areia perdia de cinco a zero: "Arrecui os arfe para invitar a catastre." - Do treinador, também de praia, Trindade: "A missão do centrefór é atrapaiar os beque." - De um outro treinador para o goleiro: "Carambolou, arreia." - De um torcedor a meu lado, vendo uma jogada magistral do enciclopédia Nilton Santos, errando, paroxismado, na tônica: "Dá-lhe, catédra!" - De Graciliano Ramos, quando ouviu pela primeira vez um rouxinol: "Eta passarinho chato!" - Do cabo Firmino, na revolução de 30, promovido pelo comandante da Força Pública Mineira, por ato de bravura em batismo de fogo: "Uai, seu coronel, tava pensando que era manobra." - De Hemingway sobre a famosa modelo Kiki de Montparnasse: "A única mulher que nunca dormiu em sua própria cama." - De um estudante para mim: "Escritor é o Euclides! Olha só: O sertanejo é ¿ vírgula! ¿ antes de tudo ¿ vírgula! ¿ um forte ¿ ponto!" Paulo Mendes Campos
Descobri hoje! Adorei! Aqui... 23.9.02
No mundo há muitas armadilhas No mundo há muitas armadilhas e o que é armadilha pode ser refúgio e o que é refúgio pode ser armadilha Tua janela por exemplo aberta para o céu e uma estrela a te dizer que o homem é nada ou a manhã espumando na praia a bater antes de Cabral, antes de Tróia (há quatro séculos Tomás Bequimão tomou a cidade, criou uma milícia popular e depois foi traído, preso, enforcado) No mundo há muitas armadilhas e muitas bocas a te dizer que a vida é pouca que a vida é louca E por que não a Bomba? te perguntam. Por que não a Bomba para acabar com tudo, já que a vida é louca? Contudo, olhas o teu filho, o bichinho que não sabe que afoito se entranha à vida e quer a vida e busca o sol, a bola, fascinado vê o avião e indaga e indaga A vida é pouca a vida é louca mas não há senão ela. E não te mataste, essa é a verdade. Estás preso à vida como numa jaula. Estamos todos presos nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver de fora e nos dizer: é azul. E já o sabíamos, tanto que não te mataste e não vais te matar e agüentarás até o fim. O certo é que nesta jaula há os que têm e os que não têm há os que têm tanto que sozinhos poderiam alimentar a cidade e os que não têm nem para o almoço de hoje A estrela mente o mar sofisma. De fato, o homem está preso à vida e precisa viver o homem tem fome e precisa comer o homem tem filhos e precisa criá-los Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las. Ferreira Gullar
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