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28.9.02

O que

Que não é o que não pode ser que
Não é o que não pode
Ser que não é
O que não pode ser que não
É o que não
Pode ser
Que não
É
O que não pode ser que
Não é o que não pode ser
Que não é o que
O que ?
O que ?
O que ?
Que não é o que não pode ser que não é

Arnaldo Antunes


"Eu não sou o que penso que sou, caro leitor, e você também não. Loucura? Pois é o que afirmam alguns dos mais talentosos e inquietos cientistas de nossos dias". A conclusão, que primeiro apareceu com a psicanálise e depois aninhou-se nas ciências humanas começa a migrar para as ciências biológicas. Veja na reportagem de Pablo Nogueira para Galileu.

Rafiza Ribeiro | 19:49 |


27.9.02

No País das Últimas Coisas

(Tradução de Luiz Araújo)


Algo desaparece e, se você passar muito tempo sem pensar nele, nada haverá de trazê-lo de volta. Recordar não é um ato de vontade, afinal. É algo que ocorre a despeito de nós, e, quando há muita coisa mudando ao mesmo tempo, o cérebro vacila e os objetos lhe escapam. Às vezes, quando me vejo tateando em busca de um pensamento que fugiu, começo a evocar os velhos tempos, a me lembrar de quando eu era menina e toda família viajava de trem para o norte, nas férias de verão.


William, meu irmão mais velho, sempre deixava para mim o assento da janela e, a maior parte do tempo, eu não falava com ninguém, viajava com o rosto comprimido na vidraça, contemplando a paisagem, estudando o céu, as árvores e a água, enquanto o trem percorria os campos.


Achava tudo tão bonito, tão mais bonito que as coisas da cidade, e, todos os anos, dizia a mim mesma: "Anna, você nunca viu nada mais lindo. Tente se lembrar disso, tente memorizar as belas coisas que está vendo, para que fiquem para sempre com você, mesmo quando já não as possa ver".


Não creio que tenha olhado para o mundo com mais interesse que naquelas viagens ao norte. Queria que tudo me pertencesse, que tudo se tornasse parte do meu ser, e recordo que tentava guardar aquela beleza na memória, armazená-la para depois, quando me fosse realmente necessária.


O diabo é que não consegui. Tentava tanto, mas, de um modo ou de outro, sempre acabava me esquecendo e, por fim, só conseguia me lembrar do quanto tentara me lembrar. As coisas passavam muito depressa e, mal as via, já se haviam escapado, substituídas por outras que também desapareciam antes mesmo que chegasse a vê-las.

Paul Auster

Rafiza Ribeiro | 00:58 |


Prima rica, prima pobre
(ou melhor: prima famosa, prima anônima)

Fotografia de GAL OPPIDO

Filha do seu Fausto, mais prima do meu pai do que minha. Rita é um talento só. Não faz força para cantar, já nasceu passarinho.

Rafiza Ribeiro | 00:52 |


25.9.02



Ode ao Café

Quintana dizia que ¿fumar é um modo de queimar as ilusões perdidas¿. Não fumo, mas sou jornalista. Bebo café.
Há alguma coisa no hábito que transcende o simples sorver a bebida.
O café é uma espécie de amigo que, numa redação, tem o charme de convocar a todos para uma rodinha de bate-papo em torno de sua garrafa, no curto tempo entre o cumprimento de uma pauta e outra. Em casa, o café é o amigo que faz companhia quando você está sozinho. Pode ser acompanhado de trilha sonora. Ou deve, dependendo do momento. Blues, jazz, Mozart, ou qualquer outro estilo de música que faça parar e pensar na vida, são bons acompanhamentos. Às vezes, um bom rock¿n¿roll. Os monges do Tibet deveriam ficar em permanente bebericação. O café faz meditar.
Mas este café do qual eu falo não pode ser tomado em elegantes rotisseries, acompanhado de croissants. As xícaras servidas nestes locais não ajudam a queimar ilusões perdidas, mas sim acendem novas fantasias que nada tem a ver com o cafezinho. É bem capaz de você achar que está em Paris, recostado na mesma cadeira na qual Victor Hugo se sentou há alguns dias atrás, ou mesmo hoje. E isso tudo sem nunca ter ido a França e mesmo sabendo que o Hugo já não toma um cafezinho há pelo menos um século. Enfim, faz com que você se sinta importante e se esqueça do café em si.
Não. O café de que falo é outro. É aquele que é procurado antes do lugar onde se vai toma-lo. Aquele que faz com que projetemos nossos olhos em um ponto qualquer, perdido no espaço. O café que se deixa saborear humildemente, e que se reconhece essencialmente como um meio para catarses.

Rafiza Ribeiro | 20:41 |


24.9.02



Fotografia de Marija Milavanovic

Rafiza Ribeiro | 23:49 |


Apanhadas no chão

- De um amigo meu, no bar: "Trabalho tanto que não tenho tempo para nada; à noite, bebo um pouco para lembrar as minhas mágoas."

- De um vendedor de cinzeiros de barro em Belém: "Se eu escrever com C, em vez de S, ninguém vai comprar."

- De um conhecido meu, quando lhe disse que certo homem público, embora de poucas luzes, era grave e honesto: "O jumento também é grave e honesto."

- Do mais preto, passando por mim, quando o menos preto lhe disse que ele só pensava em mulher: "Ué, pensar então em quê?"

- De uma expressão mineira: "Fala mais que pobre na chuva."

- Do finado Humphrey Bogart: "Um homem está sempre duas doses abaixo do normal."

- De um forjador de provérbios: "Caranguejo idoso pensa muito e brinca pouco."

- De um velhinho, ante o ar conjectural do caixeiro, quando pediu na livraria um manual sobre limitação de filhos: "Não é para mim; é para papai."

- Do matuto para o médico: "Foi tiro e queda, doutor: a pílula desceu e parou direitinho na casa da dor."

- De um velho do interior ao provar soda pela primeira vez: "Tem um gostin de pé dormente."

- De Jaime Ovalle: "O importante não é saber se a pessoa gosta de uísque, mas se o uísque gosta da pessoa."

- De Camilo Paraguassu, em um poema: "Vista de Paquetá, a lua é linda."

- De Garrincha, muito absorto, meio segundo antes de ser dada a saída no jogo do Brasil com o selecionado soviético em 1958: "Olha ali, Nilton, aquele bandeirinha é a cara de seu Carlito..."

- Do mesmo, contando ao colega onde comprara uma gravata (Roma): "Foi naquela cidade onde seu Zezé levou aquele tombo no vestiário."

- Do mesmo para um companheiro de pelada: "Quer parar de driblar!"

- De Osvaldo Cabeça de Ovo, no dia em que seu time de areia perdia de cinco a zero: "Arrecui os arfe para invitar a catastre."

- Do treinador, também de praia, Trindade: "A missão do centrefór é atrapaiar os beque."

- De um outro treinador para o goleiro: "Carambolou, arreia."

- De um torcedor a meu lado, vendo uma jogada magistral do enciclopédia Nilton Santos, errando, paroxismado, na tônica: "Dá-lhe, catédra!"

- De Graciliano Ramos, quando ouviu pela primeira vez um rouxinol: "Eta passarinho chato!"

- Do cabo Firmino, na revolução de 30, promovido pelo comandante da Força Pública Mineira, por ato de bravura em batismo de fogo: "Uai, seu coronel, tava pensando que era manobra."

- De Hemingway sobre a famosa modelo Kiki de Montparnasse: "A única mulher que nunca dormiu em sua própria cama."

- De um estudante para mim: "Escritor é o Euclides! Olha só: O sertanejo é ¿ vírgula! ¿ antes de tudo ¿ vírgula! ¿ um forte ¿ ponto!"

Paulo Mendes Campos

Rafiza Ribeiro | 23:42 |




Descobri hoje! Adorei! Aqui...

Rafiza Ribeiro | 23:17 |


23.9.02



No mundo há muitas armadilhas

No mundo há muitas armadilhas
e o que é armadilha pode ser refúgio
e o que é refúgio pode ser armadilha

Tua janela por exemplo
aberta para o céu
e uma estrela a te dizer que o homem é nada
ou a manhã espumando na praia
a bater antes de Cabral, antes de Tróia
(há quatro séculos Tomás Bequimão
tomou a cidade, criou uma milícia popular
e depois foi traído, preso, enforcado)

No mundo há muitas armadilhas
e muitas bocas a te dizer
que a vida é pouca
que a vida é louca
E por que não a Bomba? te perguntam.
Por que não a Bomba para acabar com tudo, já
que a vida é louca?

Contudo, olhas o teu filho, o bichinho
que não sabe
que afoito se entranha à vida e quer
a vida
e busca o sol, a bola, fascinado vê
o avião e indaga e indaga

A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela.
E não te mataste, essa é a verdade.

Estás preso à vida como numa jaula.
Estamos todos presos
nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver
de fora e nos dizer: é azul.
E já o sabíamos, tanto
que não te mataste e não vais
te matar
e agüentarás até o fim.

O certo é que nesta jaula há os que têm
e os que não têm
há os que têm tanto que sozinhos poderiam
alimentar a cidade
e os que não têm nem para o almoço de hoje

A estrela mente
o mar sofisma. De fato,
o homem está preso à vida e precisa viver
o homem tem fome
e precisa comer
o homem tem filhos
e precisa criá-los
Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las.

Ferreira Gullar

Rafiza Ribeiro | 10:30 |